domingo, 15 de outubro de 2017

UMA ATRIZ DE BERGMAN EM ANTENADO WESTERN DE RALPH NELSON

Para os leitores deste blog, não é novidade que sou, desde sempre, um cinéfilo facilmente impressionável com a crueldade e o realismo de determinadas cenas. Em 1968, aos 12 anos, tive as noites de sono prejudicadas pelo western Duelo em Diablo Canyon (Duel at Diablo, 1965), explicitamente brutal em vista dos padrões da época. Sequer tinha idade para assisti-lo. Era proibido para menores de 14 anos. No entanto, meu pai sempre encontrava jeito de contornar em meu favor, junto a gerentes e porteiros, esses detalhes limitadores ― desde que não envolvessem motivação sexual picante. É uma realização do humanista e progressista Ralph Nelson, atualmente esquecido. Além do nível elevado de violência gráfica, inédito para um western estadunidense do período, chamou-me a atenção a figura de Toller, interpretada por Sidney Poitier, sempre em trajes de dandy sem despertar a atenção dois demais personagens, todos brancos. Além do mais, é um suboficial desmobilizado da Cavalaria, situação certamente pouco comum aos negros no tempo do Oeste selvagem. Muito depois, nas revisões de Duelo em Diablo Canyon, fui tocado pela percepção de que se trata de realização favoravelmente antenada com as demandas das campanhas pela ampliação dos direitos civis dos negros, que agitavam a cena estadunidense em meados dos anos 60. Porém, a questão racial destacada no filme envolve as tensas relações entre brancos e índios, estes sempre enganados em suas prerrogativas por tratamento justo ― como explicitam as observações do batedor Jess Remsberg (James Garner). É um western que extravasa complexidade e merece disposição generosa para ser convenientemente apreciado. Dialoga com questões expostas por John Ford em Rastros de ódio (The searchers, 1956) e Terra bruta (Two rode together, 1961). Curiosamente, apresenta a atriz de Ingmar Bergman, Bibi Andersson, no papel da racialmente maculada Ellen Grange. Segue apreciação de 1974, revista e ampliada em 1983.






Duelo em Diablo Canyon
Duel at Diablo

Direção:
Ralph Nelson
Produção:
Ralph Nelson, Fred Engel, James Garner (não creditado)
United Artists, Nelson-Engel-Cherokee Productions
EUA ―1965
Elenco:
James Garner, Sidney Poitier, Bibi Andersson, Bill Travers, Dennis Weaver, John Hoyt, John Crawford, William Redfield, John Hubbard, Alf Elson, Bill Hart, Eddie Little Sky e os não creditados Armand Alzamora, Ralph Bahnsen, Timothy Carey, Jeff Cooper, Kevin Coughlin, Robert Crawford Jr., John Daheim, Richard Farnsworth, Joe Finnegan, Richard Lapp, Dawn Little Sky, J.R. Randall, Jay Ripley, Phil Schumacher, Al Wyatt Sr.



O diretor Ralph Nelson com a pequena Verina Greenlaw - intérprete de Christine - nos bastidores de Papai Ganso (Father Goose, 1964) 


Duelo em Diablo Canyon é western brutal e humanista filmado no deserto do estado de Utah pelo sentimental, progressista e pouco apreciado Ralph Nelson. Retoma temas abordados por John Ford em Rastros de ódio (The searchers, 1956) e Terra bruta (Two rode together, 1961).


Nelson passou pela Broadway como ator juvenil, roteirista e contrarregra. Qual muitos colegas de geração, encontrou na TV as primeiras oportunidades: atuou em diversos shows; também os escreveu e dirigiu. Em 1962 estreou no cinema com Réquiem para um lutador (Requiem for a heavyweight, 1962) — para muitos, seu melhor trabalho — estrelado por um fenomenal Anthony Quinn e Julie Harris.


O segundo filme, Uma voz nas sombras (Lillies of the field, 1963), transformou Sidney Poitier no segundo negro laureado com o Oscar, no caso, o de Melhor Ator, 24 anos após Hattie McDanniel ser agraciada com igual prêmio por Melhor Atriz Coadjuvante em ...E o vento levou (Gone with the wind, 1939), de Victor Fleming.


Depois de Duelo em Diablo Canyon Nelson voltou a dirigir Poitier em Conspiração violenta (The Wilby Conspiracy, 1974), drama político de ação e denúncia do apartheid na África do Sul. Outros títulos importantes: Quanto vale um homem (Soldier in the rain, 1963), com Steve McQueen; Os dois mundos de Charly (Charly, 1968), pelo qual Cliff Robertson ganhou o Oscar de Melhor Ator; O xerife da cidade explosiva (...Tick... tick... tick, 1969), com o negro Jim Brown vivendo o personagem do título em racista cidade do sul dos Estados Unidos; o supervalorizado western acusatório Quando é preciso ser homem (Soldier blue, 1970), sobre os massacres dos índios pela Cavalaria dos Estados Unidos; e A divina ira (The wrath of God, 1973) que uniu Robert Mitchum e Rita Hayworth — seu último papel no cinema — em história ambientada no México conflagrado pelo vendaval revolucionário.


Por aí se vê: Nelson tem queda pelos temas polêmicos que o lançam no campo progressista, com destaque para a imputação do racismo. Inclui-se nessa tendência o violentíssimo Duelo em Diablo Canyon, mais com respeito às relações entre brancos e índios ― que sitiam um destacamento da cavalaria ― e menos pela presença de Sidney Poitier. A cor do personagem e seus trajes de dandy sequer são percebidos. Ele interpreta Toller, sargento desmobilizado. Pretende juntar dinheiro para abrir um cassino. Porém, continua encalacrado com os militares. Para receber a quantia contratada, viu-se obrigado a acompanhar a expedição comandada pelo Tenente Scotty McAllister (Travers) à frente de 29 recrutas inexperientes e domar em movimento um plantel de cavalos selvagens capturados para o Exército. Por isso, é cercado, com todos os demais, por Apaches dispostos a tudo, evadidos da inóspita reserva de São Carlos e chefiados pelo enlutado Chata (Hoyt).


Sidney Poitier como Toller, ex-sargento da Cavalaria

Bill Travers como o Tenente Scotty McAllister

John Hoyt como Chata, chefe Apache


Junto aos dramas coletivos ganham destaques os problemas individuais do experiente e sensato guia Jess Remsberg (Garner) — batedor que compreende perfeitamente as razões que lançam os índios ao combate — e da branca Ellen Grange, cuja intérprete acrescenta uma nota alienígena ao filme e à paisagem típica dos westerns: a atriz sueca Bibi Andersson. O espectador logo pergunta o que a fez trocar momentaneamente o universo denso, gelado e intimista dos cineastas Ingmar Bergman ― O sétimo selo (Det sjunde inseglet, 1956), Morangos silvestres (Smultronstället, 1957), No limiar da vida (Nära livet, 1957), O olho do diabo (Djävulens öga, 1959) ― e Alf Kjellin ― O jardim dos prazeres (Lustgarden, 1961) ― pelos exteriores largos, ensolarados e poeirentos do velho Oeste.


Apesar de o filme não apelar ao clichê de unir afetivamente Jess e Ellen ao final, seus caminhos e interesses de ambos se cruzam mais de uma vez. Ele se junta ao destacamento pela oportunidade de chegar a Rio Conchos, onde buscará meios para se vingar dos assassinos e escalpeladores da esposa comanche. Encontrou Ellen pela primeira vez nos momentos iniciais, aparentemente perdida sob o sol abrasador do deserto e ameaçada pelos Apaches. Tomou-a sobre proteção à despeito dos riscos. Conduziu-a à cidade de Fort Creck, ao encontro do marido pouco amistoso e nada compreensivo: o comerciante Willard Grange (Weaver).



James Garner como o batedor Jess Remsberg


Willard Grange (Dennis Weaver) e Jess Remsberg (James Garner)


Há tempos Ellen fora raptada pelos mesmos Apaches, resgatada e devolvida ao convívio comunitário para decepção dos concidadãos puritanos e do próprio marido. Por drama semelhante passou Elena de La Madriaga (Linda Cristal) em Terra bruta. Uma e outra foram cruelmente acusadas pelos olhares silenciosos da curiosidade sórdida e censura social. Todos queriam saber dos detalhes mais recônditos a respeito do período de permanência com os índios. Para os pretensos civilizados, uma branca decente optaria pelo suicídio; jamais voltaria ao convívio social de origem depois de tocada por um pele-vermelha considerado selvagem, pagão e impuro. Ellen evitou a solução extrema e cometeu o ato considerado indigno de voltar sexualmente maculada para o marido. Sob pressão da moral comunitária, Willard submete a esposa a tratamento ambíguo. Por esse e outros motivos, ela preferiu retornar para os Apaches. Fugiu na primeira oportunidade, até ser recuperada por Jess. Continua com a firme disposição de regressar à tribo, como se algo mais a atraísse. Mais uma vez escapa.


O motivo que a impulsiona é o bebê que gerou do convívio com o guerreiro Natche, primogênito de Chata. Porém, o status de Ellen junto aos índios foi consideravelmente alterado. Agora, está na iminência de ser sacrificada ritualmente, acusada de provocar a morte do filho do chefe. Jess se apresenta mais uma vez para salvá-la, com o bebê. São conduzidos à proteção da contingente emboscado, em cujo seio se encontra o ressabiado e humilhado Willard.



Surpreendentemente, Ellen e a criança recebem a melhor acolhida da tropa e de Toller. O marido e o Tenente McAllister são as exceções. Entretanto, a insatisfação do oficial decorre da situação adversa do grupo. Parece residir aí a ingenuidade e calcanhar de Aquiles de Duelo em Diablo Canyon. Sobra a impressão de que o roteiro de Marvin H. Albert e Michel M. Grilikhes exagerou na idealização à vocação democrática e includente dos soldados; como se os descontextualizasse ao extremo. Afinal, absorviam os mesmos valores fundados no preconceito racial que fizeram a população de Fort Creek recriminar Ellen.


Ellen Grange (Bibi Andersson), o filho mestiço e o ressabiado marido Willard Grange (Dennis Weaver)


Entretanto, tal sensação merece melhor compreensão. Na verdade, não se trata de inconsistência do filme ou do roteiro. Há a considerar, também e principalmente, o momento presente em que Duelo em Diablo Canyon foi realizado. Apesar do risco do anacronismo, Ralph Nelson e os guionistas se permitiram à abertura de diálogo claro e explícito entre os Estados Unidos do velho Oeste, século 19, com o país na década de 60 — movimentado pelas campanhas em prol da ampliação dos direitos civis aos negros praticamente destituídos de cidadania. A presença de Sidney Poitier como sargento desmobilizado da cavalaria e nas vestes de um cavalheiro chama a atenção para essa questão, além do fato de que a cor de sua pele sequer é percebida pelos demais personagens. É como se no tempo da ação fílmica os negros já gozassem plenamente de todos os direitos pelos quais lutavam para conseguir nas mobilizações acontecidas nos Estados Unidos na sexta década do século 20.


Duelo em Diablo Canyon transmite um discurso em prol da concórdia entre os diferentes; pela aceitação da tolerância. O bebê mestiço de Ellen Grange, bem recebido e festejado pelos militares, tão alheios às origens raciais da criança, chama a atenção para as demandas do presente da realização. Provavelmente, é o western mais compromissado política, social e civilmente com as exigências de justiça de um tempo. Também lembra o sempre pendente problema dos índios, nunca completamente resolvido nos planos raciais e políticos. Se não há racismo contra negros, o preconceito se apresenta claramente contra os primeiro ocupantes da terra. O filme expõe o fato de forma aberta e corajosa. Basta ver como Jess perdeu a esposa comanche, o tratamento concedido a Ellen Grange pela comunidade e o mal estar que a criança mestiça provoca em Willard. Além do mais, há as falas do personagem interpretado por James Garner sobre as condições pouco aprazíveis das reservas destinadas aos índios, particularmente aos Apaches.



Toller (Sidney Poitier) brinca com o bebê mestiço de Ellen Grange (Bibi Andersson)


Duelo em Diablo Canyon inova na abordagem da sempre tensa problemática racial que opõe brancos aos índios. Porém, apesar do desenvolvimento dinâmico e elementos narrativos bem integrados, não deixa de ser um western obediente ao modelo que serviu de base à maior parte dos filmes do gênero. Na hora final, Jess salva os sobreviventes do sítio ao chegar com o socorro das forças lideradas pelo Coronel Foster (o diretor sob a denominação de Alf Elson). Chata e os índios são dominados. Ellen, desesperada, se adianta para localizar e dar fim ao sofrimento do marido com um tiro de misericórdia. Ele, durante o cerco, foi capturado e submetido a lenta e atroz tortura com fogo. Jess a impede. Também deseja encontrá-lo, por motivos menos nobres: descobriu que é o responsável pelo assassinato da esposa e quer vingança. Porém, pouco pode fazer ao se deparar com a horrenda visão de Willard torturado, ainda vivo e suplicando pelo alívio da morte.


Diante da rendição dos Apaches, Ellen se pronuncia: “Fico pensando se dessa vez ficarão na reserva...”. Jess pergunta: “Por que deveriam ficar?” Pelo personagem do batedor, Ralph Nelson explicita suas boas intenções. Irá prolongá-las com doses mais elevadas de violência em Quando é preciso ser homem.


Nelson e Sidney Poitier estavam com a reativação da parceria anunciada para 1964, em projeto que nunca saiu do papel: The seventh file, substituído por Duelo em Diablo Canyon[1]. Além de Bibi Andersson, há outro estrangeiro no cast: o britânico Bill Travers[2]. Quanto a James Garner, tem como Jess Remsberg a primeira oportunidade em um western cinematográfico desde que deixou a TV e a série Maverick[3].



Toller (Sidney Poitier)


Os atores principais, Poitier e Garner, estão particularmente muito bem. Oferecem personagens de corte realista, multifacetados. Garner, geralmente relegado ao estoque dos canastrões simpáticos, oferece um áspero, amargo, duro, pragmático e convincente Jess Remsberg. Até o momento, é um dos seus melhores momentos no cinema.


Duelo em Diablo Canyon tem na direção de fotografia de Charles F. Wheeler e no trabalho de câmera alguns dos principais destaques. Tanto a iluminação como a objetiva valorizam os aspectos físicos do terreno, tão ensolarado, árido e sufocante ― aparência que amplia sobremaneira as potencialidades do drama. Logo no início, uma tomada aérea ― rara em westerns ― descortina amplamente a região rochosa de Kanab, no Utah, onde as externas foram obtidas. Já nas cenas de ação, a câmera faz questão de posicionar em meio ao movimento, mesmo que o caos se instale durante os embates e com a tomada de vários close-ups que comunicam sensações de perigo, pânico e temor à morte. As cenas são extremamente realistas e algumas estão entre as mais chocantes e incômodas ― não só dos westerns como de todo o cinema de então. O momento no qual Jess se depara com os restos do moribundo e desafortunado Willard Grange causa profunda impressão e atrapalhou minhas noites de sono durante tempo considerável. Diferente também é a jazzística pontuação musical de Neal Hefti, afinada com o clima de exasperação. Faz, com propriedade, uso de guitarras, sopros, percussão e teclados.





Roteiro: Marvin H. Albert, Michel M. Grilikhes, com base na novela Apache rising de Marvin H. Albert. Música: Neal Hefti. Direção de fotografia (Color DeLuxe): Charles F. Wheeler. Figurinos: Yvonne Wood. Montagem: Fredric Steinkamp. Guarda-roupa: Eddie Armand. Edição musical: Richard Carruth. Assistentes de direção: Philip N. Cook, Emmett Emerson. Decoração: Victor A. Gangelin. Assistente de montagem: Allan Jacobs. Maquiagem: Gustav M. Norin. Supervisão de produção: J. Paul Popkin. Assistente para o diretor: Allan Wyatt. Direção de arte: Alfred C. Ybarra. Edição de efeitos sonoros: Jerry Whittington (não creditado). Efeitos especiais: Roscoe Cline. Coordenação de dublês: Al Wyatt Sr. (não creditado). Dublês (não creditados): Roydon Clark, John Daheim, Richard Farnsworth, Joe Finnegan, Bill Hart, Leroy Johnson, Boyd 'Red' Morgan, Glenn Randall Jr., Phil Schumacher, Bobby Somers, Neil Summers, Rodd Wolff. Sistema de mixagem de som: Westrex Recording System. Tempo de exibição: 103 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974, revisão e ampliação em 1983)



[1] Primeiro western com a participação de Sidney Poitier.
[2] Tal qual o personagem do Tenente Scotty McAllister, Travers de fato quebrou a perna durante as filmagens.
[3] Produzida e exibida originalmente pela rede ABC ― American Broadcasting Company ― ao longo de cinco temporadas, de 1957 a 1962, com 124 episódios.