domingo, 10 de dezembro de 2017

DISNEY NA SAVANA AFRICANA DO REI DOS ANIMAIS

A famosa série Maravilhas da natureza (True-life adventures), da Walt Disney Productions, é um conjunto de 17 títulos de metragens diversas que enfocam documentalmente a convencionada vida selvagem ou natureza em estado bruto. De 1948 a 1960 as equipes de filmagens da companhia percorrem savanas da África, o gelado Ártico, planícies e pântanos dos Estados Unidos, selvas do Canadá e da América do Sul. Com muita paciência e dedicação colheram imagens esmeradas, trabalhadas por montagens dinâmicas e ritmadas por espirituosos comentários musicais. Marcaram época títulos como No vale dos castores (Beaver valley, 1950), O alce olímpico (The olimpic elk, 1952), Aves aquáticas (Water birds, 1952), Terra dos ursos (Bear country, 1953), Prowlers of the everglades (1953), O drama do deserto (The living desert, 1953), A planície imensa (The vanishing prairie, 1954), No coração da floresta (Perri, 1957) e, entre outros, o filme da vez neste blog: o premiado O leão africano (The African lion, 1955), dirigido por James Algar — responsável por quase todos os exemplares da série. Apesar de muito incensado, tem andamento dos mais lentos e composição das mais sisudas se comparado às demais realizações das Maravilhas da natureza. Provavelmente pelo fato de que as savanas da África são espaços dos mais dramáticos e violentos para a encenação da luta pela vida. Nisso, algumas imagens impressionam e chocam, principalmente ao captar o desespero das espécies durante o inclemente período das secas, marcado por extensas migrações coletivas. Segue apreciação de 1995. 





O leão africano
The African lion

Direção:
James Algar
Produção:
Walt Disney (não creditado)
Walt Disney Productions
EUA — 1955



O diretor James Algar



De 1948 a 1960 — quando diversificou consideravelmente as atividades — a Walt Disney Productions executou a famosa série True-life adventures — no Brasil, Maravilhas da natureza. É um conjunto de filmes curtos, médios e longos que apreendem diversos aspectos da natureza, em particular da convencionada vida selvagem. Os títulos foram concebidos com esmero fotográfico, montagens dinâmicas, divertidos comentários musicais e até revolucionários movimentos/tomadas de câmera. No Ártico, por planícies, desertos e pântanos dos Estados Unidos, nas florestas canadenses, savana africana e selvas da América do Sul, as equipes de filmagens da Disney colheram material para 17 produções. Todas, pelo visto, ganharam, além das telas dos cinemas, as páginas das histórias em quadrinhos de números publicados pela Editora Abril, ao longo das décadas de 60 e 70, das revistas Tio Patinhas e Almanaque Disney. Nesse formato, infelizmente, perderam-se o rigor do olhar, os efeitos fotográficos, os comentários musicais, as reações dos animais e a própria dinâmica do material cinematográfico.


Prestigiar a exibição dos filmes da True-life adventures nos cinemas sempre foi oportunidade das mais prazerosas, ainda mais quando exemplares curtos completavam o tempo das sessões e, não raro, revelavam-se mais interessantes e inteligentes que os títulos principais estrelados por gente de carne e osso.


O folgado leão: come e dorme

A leoa à espreita dos gnus

A leoa e os filhotes


O leão africano é o décimo filme da True-life adventures. Os demais são: A ilha das focas (Seal island, 1948), No vale dos castores (Beaver valley, 1950), Nature’s half acre (1951), O alce olímpico (The olimpic elk, 1952), Aves aquáticas (Water birds, 1952), Terra dos ursos (Bear country, 1953), Prowlers of the everglades (1953), O drama do deserto (The living desert, 1953), A planície imensa (The vanishing prairie, 1954), Secrets of life (1956), No coração da floresta (Perri, 1957), O Ártico selvagem (White wilderness, 1958), Criaturas estranhas da natureza (Nature’s strangest creatures, 1959), O eterno e misterioso mar (Mysteries of the deep, 1959), O gato da floresta (Jungle cat, 1960) e Islands of the sea (1960). Criaturas estranhas da natureza e O eterno e misterioso mar não trazem referências aos diretores. Paul Kenworthy e Ralph Wright são os responsáveis pela concepção de No coração da floresta. Aves aquáticas é de Ben Sharpsteen. Todos os demais componentes da série têm direção de James Algar. As narrações originais, invariavelmente de Winston Hibler, ganharam, no Brasil, versão em português pela voz de Aloysio de Oliveira.


O leão africano consumiu três anos de tomadas em locações diversas das savanas da África Meridional e Central, dominadas pelo único ponto elevado da região: o Kilimanjaro. Foi premiado com o NBR Award pela estadunidense National Board of Review, que o incluiu entre os dez títulos mais importantes de 1955. Em 1956, no Festival de Berlin, o diretor James Algar recebeu a Grand Silver Plaque e, por Melhor Documentário Longo, o Urso de Prata.


Comparado a outros filmes da True-life adventures — principalmente com Aves aquáticas, A planície Imensa e O drama do deserto, os que mais se fixaram em minha memória —, O leão africano é mais sisudo na apresentação e condução da temática abordada. Carece de humor. Por outro lado, tal característica, provavelmente, não encontraria espaço e tratamento adequados diante da dureza da vida nas savanas, principalmente da constante luta pela sobrevivência que ocupa os animais em tela.


A diligente leoa perscruta o entorno para a caçada


Apesar de o título fazer referência apenas ao leão, outros animais são considerados: zebras, impalas, búfalos, rinocerontes, hipopótamos, gazelas, antílopes, babuínos, elefantes, leopardos, guepardos, gnus, hienas, chacais, crocodilos, girafas, aves diversas, gafanhotos e mais insetos são razoavelmente privilegiados pelas tomadas e narração. Todos integram a corte do leão. Alguns entram na composição alimentar do rei dos animais. Servem de justificativa à nobreza do título e, paradoxalmente, também questionam a realeza leonina. Afinal, passa a vida quase que na mais completa modorra, preferencialmente dormindo. Todo o árduo trabalho da caça corre por conta das fêmeas. Além do fornecimento de alimentação ao bando, vigiam as carcaças contra as expropriações oportunistas de chacais e hienas.



Os elefantes - acima e abaixo - também habitam a savana


A savana também é habitat das girafas (acima) e do leopardo (abaixo)


Algumas imagens impressionam, principalmente as tomadas da grande migração compartilhada por todos os animais da savana durante a estação seca. Nessa ocasião, os gnus — em decorrência do calor e da poeira — são tomados de desorientação e vagam em círculos; gigantescas nuvens de gafanhotos afetam negativamente a percepção dos felinos enquanto fazem a festa de aves famintas. Uma sequência chocante e cruel merece destaque: o rinoceronte mortalmente aprisionado no lago transformado em atoleiro tenta inutilmente se desprender, imagem que enche de pavor o elefante.





Apresentação: Walt Disney. Narrador: Winston Hibler. Roteiro: James Algar, Winston Hibler, Ted Sears, Jack Moffitt. Produção associada: Ben Sharpsteen. Música: Paul J. Smith. Direção de fotografia (Technicolor): Alfred G. Milotte, Elma Milotte. Montagem: Norman R. Palmer. Gerente de produção: Erwin L. Verity. Direção de som: Robert O. Cook. Processos especiais visuais: Ub Iwerks. Efeitos de animação: Joshua Meador, Art Riley. Orquestração: Joseph Dubin. Edição musical: Evelyn Kennedy. Gravação de som: RCA Sound Rocording. Colabororação à produção: Departamento de Parques da Tanzania; Reserva Sluhluwe-Umfolozi; Reservas naturais do Quênia; Parque Nacional Kruger, África do Sul; Parque Nacional do Quênia; Parque Nacional Rainha Elizabeth, Uganda; Parque Nacional Seregente, Tanganika; Autoridade em Vida Selvagem, Uganda. Tempo de exibição: 75 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1995)

domingo, 3 de dezembro de 2017

ROBERT RYAN EMERGE DAS PODEROSAS E MENOSPREZADAS CINZAS DE NICHOLAS RAY

Em parceria com A. I. Bezzerides, o diretor Nicholas Ray extraiu de Mad with much heart, novela inglesa de George Butler, o roteiro do tão poderoso quanto injustamente menosprezado Cinzas que queimam (On dangerous ground). Realizado em 1949, foi inexplicavelmente arquivado pela companhia produtora durante dois anos. Aparentemente, a RKO Radio — à época presidida pelo maníaco Howard Hughes — não sabia o que fazer com o material. É uma narrativa concisa, ágil e dinâmica. Expõe ao longo de 82 minutos uma poderosa história de redenção. Começa com a aparência de filme noir e se reordena para um drama de purgação de almas sofridas, expiação de culpas e recomposição moral. Termina no terreno do melodrama romântico, porém de tonalidades adultas e apartadas de ranços sentimentalistas. Pode-se lamentar a alteração do epílogo a que Nicholas Ray foi obrigado por ordem da produção. Felizmente, apesar de suavizar o realismo pretendido, Cinzas que queimam não foi prejudicado em suas intenções. Ainda assim, por causa da indevida intromissão, o título amargou injusta subestima da parte do realizador. No entanto, é um dos mais fortes títulos de sua filmografia. As atmosféricas imagens em preto e branco conseguidas pela direção de fotografia de George E. Diskant estão entre as melhores que conheço. Em paralelo, há a minimamente brilhante e enérgica trilha musical de Bernard Herrmann; provavelmente a melhor peça cinematográfica do compositor. Apoiado pelas perfeitas atuações de Ida Lupino, Ward Bond e Sumner Williams, Robert Ryan domina o filme de ponta a ponta, sem a necessidade de muito esforço. Sua interpretação para o obscuro detetive Jim Wilson é prova suficiente de que é um dos atores mais necessitados do justo reconhecimento. Transmite sempre a sensação de estar em seu natural nos momentos de contenção e ação. Revela com convicção aquilo que é exigido pelo papel, em acordo com as circunstâncias. Segue apreciação firmada em 1980.






Cinzas que queimam
On dangerous ground

Direção:
Nicholas Ray, Ida Lupino (não creditada)
Produção:
John Houseman
RKO Radio Pictures
EUA — 1949
Elenco:
Robert Ryan, Ida Lupino, Ed Begley, Ward Bond, Charles Kemper, Anthony Ross, Ian Wolfe, Sumner Williams, Gus Schilling, Frank Ferguson, Cleo Moore, Olive Carey, Richard Irving, Pat Prest e os não creditados Billy Hammond, Eugene Persson, Tommy Gosser, Ronnie Garner, Dee Garner, Harry Joel Weiss, Ruth Lee, Kate Drain Lawson, Eddie Borden, Esther Zeitlin, William Challee, Stephen Roberts, Budd Fine, Mike Lally, Don Dillaway, Al Murphy, Art Dupuis, Frank Arnold, Homer Dickenson, Ken Terrell, William J. O'Brien, Nita Talbot, Joe Devlin, Jim Drum, A. I. Bezzerides, Tracey Roberts, Vera Stokes, Nestor Paiva, Leslie Bennett, Jimmy Conlin, Joan Taylor, Roy Alexander, Vince Barnett, Ted Birdsill, Vernon Birdsill, John Breen, Bud Cokes, G. Pat Collins, Mary Dyger, Clint Hardenbrook, Al Hodgson, Francis Jenkins, Jay Jenkins, Eddie Linke, Bill Thompson, Arthur Tovey, Andy Vaughan, Don Yager.



Diante de Robert Ryan, o diretor Nicholas Ray orienta Ida Lupino durante as filmagens de Cinzas que queimam 


Cinzas que queimam integra o grupo dos pequenos grandes filmes menosprezados. O próprio Nicholas Ray o subestimava. Considerava-o um fracasso. Não sei se essa avaliação do cineasta mudou com o tempo. Ao longo de dinâmicos e concisos 82 minutos, o espectador é literalmente envolvido por um dos melhores contos morais sobre os traumas da desumanização. Quando começa, o protagonista Jim Wilson — um dos melhores desempenhos de Robert Ryan; paradoxalmente, um papel que pouco lhe exigiu — amarga o inferno da existência. Dessa estação, parece, não há possibilidades de retorno. Só lhe resta a conformação enquanto afunda cada vez mais, com o próprio esforço, na sujeira do trabalho de investigador policial habituado às mazelas e contradições do submundo. Entretanto, uma janela se abrirá. A narrativa, de início, aponta para um dos mais duros e escuros filmes noir. À medida que se desenrola, escapa às tramas do trágico fatalismo — tão característico do gênero — e adianta a possibilidade de redenção. O encerramento, logo se percebe, não é o pretendido pelo diretor. A RKO Radio, depois de atrasar a distribuição por dois anos, ordenou epílogo mais otimista, em tom menor e com saída romântica. Ray, certamente, repudiou a tramóia. Mas pouco pôde fazer na categoria de diretor contratado.


Dos males o menor: apesar de abominável, a intromissão da companhia produtora não estragou Cinzas que queimam. Evidentemente, contribuiu para subestimá-lo no afã de humanizar, pelo lado mais óbvio, o personagem interpretado por Robert Ryan — além do que fizera inicialmente Nicholas Ray, sem comprometer a dureza do realismo.


Não fossem as qualidades narrativas e a atuação de Ryan, outros motivos de ordem cinematográfica valorizam a realização. A atmosférica direção de fotografia em preto e branco de George E. Diskant é uma delas. As duas frentes narrativas são finamente demarcadas pela oposição entre o clima soturno da cidade — antro de perdição aos desprovidos de válvulas de escape — e o aspecto diáfano do campo — o reino da natureza aberto às elaborações e reparações. A transição entre esses espaços é inclusive fixada por uma sensação de alívio na respiração do espectador, também percebida no duro semblante de Jim Wilson ao volante do carro. As imagens de Cinzas que queimam estão entre as melhores de todo o cinema.


Robert Ryan como o detetive Jim Wilson


Em paralelo às qualidades fotográficas há a minimamente brilhante e enérgica trilha musical de Bernard Herrmann; provavelmente, o melhor momento do compositor. Ouve-se, logo na abertura, a vibração dos instrumentos de sopro na execução de um tema de caçada. Antecipa o assunto englobado pelo título e a entrada em cena de Wilson — um predador do submundo na melhor acepção do termo, plenamente conformado à condição de associado ao ambiente vital de criminosos de todos os tipos. Porém, como o filme também trata de redenção, os tensos acordes iniciais cedem vez à terna e bela melodia das cordas de Virginia Majewski. Ela executa o tema de Mary Malden (Lupino), personagem essencial à recomposição do detetive. A delicadeza da música funciona como manto apaziguador de almas feridas.


Lançado em 1951, Cinzas que queimam guarda, no tocante ao protagonista masculino, semelhanças com No silêncio da noite (In a lonely place), obra mestra de Ray realizada em 1950. Neste, o roteirista de cinema Dixon Steele (Humphrey Bogart) é uma espécie de alma gêmea de Jim Wilson. Ambos são amargurados e violentos. Não sabem lidar com a fúria que armazenam em estado bruto. Estão sempre prontos a explodir, com sérias consequências para terceiros. Ao que se sabe, Jim e Dixon guardam íntima relação com as sensibilidades à flor da pele do diretor desde o final da década de 40. Nicholas Ray atravessava quadra afetivamente complicada, sem saber como lidar racionalmente com mágoas e culpas decorrentes do traumático processo de encerramento da relação conjugal com a atriz Gloria Grahame — ainda por cima a intérprete de Laurel Gray em No silêncio da noite. O corpo da personagem servia de anteparo ao descontrole da força física de Dixon. Segundo os analistas, o detetive de 1949 e o roteirista de 1950 funcionavam como escoadouros à decomposição do estado de espírito de Ray. A ele só restava o cinema como arena para o exorcismo dos demônios que o torturavam. Durante as filmagens de No silêncio da noite, a crise conjugal encontrou o limite e sobreveio a separação. Grahame o deixou. Para se proteger das agruras psicológicas do abandono e sem um lar ao qual voltar ao término do expediente, passou a dormir nos cenários — inclusive para ocultar dos curiosos e maledicentes a situação presente que considerava vergonhosa. Um desses locais de pouso era uma residência habitada pelo casal em dias mais felizes.


A. I. Bezzerides e Nicholas Ray extraíram o roteiro enxuto de Cinzas que queimam da novela inglesa Mad with much heart, de George Butler. O original trata de um policial londrino obrigado a confrontar o lado tenebroso da própria alma e a encontrar chances de renovação moral e psíquica durante missão empreendida na zona rural.


O filme começa com Nova York em irretocável ambientação noturna. Um carro avança para recolher policiais que entrarão em serviço. Primeiro busca Pete Santos (Ross). Este, entre afável e lacônico, se despede da preocupada e ansiosa esposa Peggy (Tracey Roberts/não creditada). A seguir apanha Pop Daly (Kemper), reunido com a mulher (Vera Stokes/não creditada) e filhos diante da TV. Ambos levam vidas estruturadas; possuem lares e famílias aos quais retornam e funcionam como centros de recomposição emocional após as atribulações da patrulha e perseguição a criminosos. O mesmo não pode ser dito de Jim Wilson, um lobo solitário. Não espairece. Vive em isolamento. É incapaz de se desligar do trabalho, inclusive quando se alimenta. Na juventude, experimentou relativo sucesso como jogador de football. Está há 11 anos na polícia e totalmente absorvido pelas obrigações da função, principalmente pelo lado mais sombrio da rotina. Apesar de honesto, é taciturno, duro e bruto. Não titubeia para descer ao nível do "lixo" que combate. Inclusive, assim se reconhece e à corporação: "Nós somos somente lixeiros, homens de lixo limpando o lixo das ruas". Ao término dos plantões retorna à solidão das pouco convidativas acomodações pessoais — consumido pela sordidez da profissão que despreza e sempre alimentado por ela. Está à beira do colapso. Por causa da desmedida violência empregada para arrancar confissões de meliantes e informantes, é posto na "geladeira" pelo Capitão Brawley (Begley) que o chama de "gângster com distintivo".


A "perdida" Myrna Bowers (Cleo Moore) com os detetives Pete Santos (Anthony Ross) e Jim Wilson (Robert Ryan)


Jim é enviado ao gelado lugarejo chamado significativamente de Sibéria, em Westham, arredores rurais de Nova York. Auxiliará na investigação do brutal assassinato de uma jovem. Depara-se com Walter Brent (Bond), furioso pai da vítima, armado com espingarda de cano duplo, disposto a fazer justiça com as próprias mãos e pouco propenso a respeitar um policial da cidade grande. É um homem rude, brutalizado e cego pela tragédia, tomado pela irracionalidade da vingança custe o que custar. Uma peça armada pelas circunstâncias torna Jim parceiro de Brent na busca por nevados prados, encostas e caminhos. Cinzas que queimam não perde tempo. As pistas frescas do assassino são seguidas de perto. Enquanto isso, o perspicaz detetive não demora a perceber que o transtornado pai é sua imagem duplicada. Neste momento lhe cabe a missão de guardar a frieza e a racionalidade. São conduzidos a uma casa isolada, habitação de Mary Malden (Lupino) — uma cega sagaz — e Danny (Williams) — o irmão mentalmente problemático e ora ausente.


Jim Wilson (Robert Ryan) e Walter Brent (Ward Bond)


As mudanças no caráter de Jim Wilson já se faziam evidentes desde a parceria firmada com Walter Brent. Agora, serão aprofundadas. Cinzas que queimam não é propriamente lançado no campo noir como inicialmente dava a entender, sequer na arena do melodrama romântico como sugerirá a interação do detetive com Mary Malden. É certo que o romantismo se instala, em tonalidades adultas, apartadas do mais meloso sentimentalismo. O principal, no entanto, é ver como o filme passa a se ordenar de forma um tanto pausada — apesar da agilidade e do dinamismo narrativos — como suave afresco para a recomposição da personalidade de Wilson.


A casa de Mary, divisada ao longe pelos inusitados parceiros, está iluminada em um cômodo. Fica às escuras à medida que se aproximam. Luz alguma é acesa quando são recepcionados pela personagem vivida por Ida Lupino. Convidados a entrar e a buscar pelo suspeito, estranham a penumbra que envolve a mulher e que parece não incomodá-la. Walter Brent, tenso, cego pela fúria, sequer se presta à compreensão do contexto. Por sua vez, Jim está atento à peculiar movimentação da anfitriã. Logo se vê diante de uma cega, alguém envolto na permanente escuridão. Atraído pela personagem, volta para conversar ao deixar Brent ocupado na busca aos arredores da residência. O policial — habituado à desconfiança generalizada — concentra toda a atenção em Mary — por sua vez obrigada a confiar em todos dada a peculiaridade da própria condição. Apesar das diferenças, estão conectados pela solidão e penumbra — cada qual de uma determinada maneira. Os sentidos aguçados da mulher, treinados para perscrutar ambientes e indivíduos próximos, logo decifra o homem ao lado. Desvenda-lhe as pulsações e o sofrimento entranhado no escuro da alma. A melodia suave das cordas de Virginia Majewski a tudo envolve. O feroz detetive das zonas sombreadas da cidade grande, agora fragilizado e tomado de muda surpresa, parece se iluminar pela força de uma calma que lhe soa estranha. Está absorvido pelo calor e confiança de Mary; por algum temor também. Experimenta a tristeza e a solidão de outra forma, como se estivesse disposto a negociar com essas sensações em prol do próprio bem. Ela percebe sob a carapaça do predador alguém dotado de sensibilidade, apesar de tê-la sufocado quase por completo. Por fim, sem alternativas, apela pelo irmão — o instável e algo selvagem Danny, assassino da filha de Brent. É praticamente uma criança necessitada de ajuda. Que seja capturado vivo e mantido em segurança, para ter direito ao justo tratamento.


Jim Wilson (Robert Ryan), Walter Brent (Ward Bond) e Mary Malden (Ida Lupino)


Sinceramente tocado, Jim promete o possível para preservar a integridade de Danny. Consegue localizá-lo. Desarma-o e tenta conduzi-lo com calma. Infelizmente, sobrevém a brutal intervenção de Brent. Segue-se a fuga e frenética perseguição pela neve, até as escarpas — de onde o apavorado Danny despenca para a morte. A ação e fúria desprendidas pelo pai vingativo perdem imediatamente os significados. Ou tudo passa a fazer sentido. O personagem interpretado por Ward Bond retoma a lucidez diante do corpo de um garoto. Constrangido, não se desespera. Apenas lamenta, sinceramente. Ajoelha-se junto ao cadáver e toma-o nos braços para conduzi-lo até a casa. Ergue-se com o significativo auxílio de Jim, igualmente tocado. Para Mary, não adiantam explicações e justificativas. Recolhe-se após tratar o detetive com dura rispidez. A este só resta retornar ao lugar de origem, visivelmente abalado. Reencontra a escura e assustadora metrópole. Segue-se o corte e tornamos a vê-lo à porta de Mary Malden. É recebido com a franca e discreta disposição de um espírito desarmado. Ela, em posição elevada pelo degrau da escada, envolve-o num abraço de aspecto quase maternal; uma insólita imagem da Pietà. Duas metades até então separadas se complementam.




Acima e abaixo: Mary Malden (Ida Lupino) e Jim Wilson (Robert Ryan)


Repleto de agilidade, com imagens captadas por câmera atenta e centrada nos personagens — tomada alguma é vazia; os planos são plenos de significação — Cinzas que queimam é simples em sua estrutura formal. No entanto, é um dos trabalhos fundamentais de Nicholas Ray. Percebe-se o apreço que tem pelos personagens, inclusive pelos aparentemente repulsivos, e o esforço que faz para compreendê-los e humanizá-los de acordo com o que são ou aparentam ser. Nisso, é fundamental não tomá-los como simples abstrações ou indivíduos que se bastam. Torna-se essencial observá-los em seus contextos de vida e as relações sociais que estabelecem. Solidão, alienação urbana, anomia psicológica, desesperança e sensação de inutilidade estão sempre presentes e prontas a preencher personagens como Jim Wilson com as devidas atribuições de sentido. Apesar da simplicidade, é um filme de difícil operacionalização nos concisos 82 minutos de exibição — algo só conseguido por alguém com pleno domínio da narrativa.


Mary Malden (Ida Lupino)

  
Se a câmera está sempre atenta aos personagens e às suas expressões, Ray não perde os atores de vista. Consegue atuações de primeira classe. Cinzas que queimam é, a um só tempo, drama criminal, filme romântico, conto de mistério e estudo da moralidade. É totalmente dominado pela atuação de Robert Ryan. O ator transmite a sensação de estar em seu natural nos momentos de contenção e ação. Mostra com plena convicção aquilo que é exigido pelo papel, em acordo com as circunstâncias. Faz-se lobo e cordeiro com plena credibilidade. Lamentavelmente, é um valor subestimado e muito injustamente reputado como canastrão pelas apreciações apressadas. Ida Lupino, Ward Bond e Sumner Williams estão excelentes. Porém, Robert Ryan rouba o filme. Logo no começo mostra a que ponto pode chegar quando explode em fúria psicótica ao confrontar o marginal Bernie Tucker (Irving): "Por que vocês, lixos, me provocam assim? Sabem que confessarão. Eu sempre os faço confessar".


Mary Malden (Ida Lupino) e Jim Wilson (Robert Ryan) no final de Cinzas que queimam


Por fim, algumas curiosidades sobre a produção: 1) Nicholas Ray, enfermo e impossibilitado de trabalhar durante alguns dias das filmagens, foi substituído por Ida Lupino. Ela já experimentara o sabor do ofício, sem levar crédito, em Not wanted (1949), de Elmer Clifton. Nesse ano também realizou Quem ama não teme (Never fear). Até o lançamento de Cinzas que queimam passou pela direção de O mundo é culpado (Outrage, 1950) e Laços de sangue (Hard, fast and beautiful, 1951). 2) Lee J. Cobb, Albert Dekker e Howard Da Silva foram, nessa ordem, cogitados para o papel de Walter Brent. 3) O uso até então raro de câmera de mão pelo cinema hollywoodiano conferiu aspecto frenético, trepidante e realista as cenas de perseguição na neve e, de certa forma, antecipou tendência comum ao cinema contemporâneo.



  
Roteiro: A. I. Bezzerides, Nicholas Ray, com base em novela de George Butler, Mad with much heart. Direção de fotografia (preto e branco): George E. Diskant. Música: Bernard Herrmann. Montagem: Roland Gross. Produção executiva: Sid Rogell. Direção musical: C. Bakaleinikoff. Direção de arte: Ralph Berger, Albert S. D'Agostino. Maquiagem: Mel Berns. Som: Phil Brigandi, Clem Portman, Harold M. McNiff (não creditado). Penteados: Larry Germain, Josephine Sweeney (não creditado). Decoração: Harley Miller, Darrell Silvera. Efeitos especiais: Harold E. Stine, Jack Lannan (não creditado). Produção de elenco: Dick Stockton (não creditado). Assistente de gerente de produção: John Burch (não creditado). Gerente de produção: Walter Daniels (não creditado). Gerente de unidade: Lloyd Richards (não creditado). Assistentes de direção (não creditados): William Dorfman, Maxwell O. Henry. Contrarregra (não creditada): Sydney M. Fogel, Gene Gossert, Johnny Peacock. Cabos: Cecil Shephard (não creditado). Gravação de som da segunda unidade: Jean L. Speak (não creditado). Boom: James Thompson (não creditado). Assistentes de câmera (não creditados): Landon Arnett, E. T. Harri, George Hollister, George Marquenie, Ralph Wildman. Eletriscista-chefe: S. H. Barton (não creditado). Operador de câmera: Emmett Bergholz (não creditado). Fotografia de cena: Ollie Sigurdson (não creditado). Corte do negativo: Frederic Knudtson (não creditado). Gerente de locações: Louis Shapiro (não creditado). Músicos: Virginia Majewski (viola), Victor Bay (violino/não creditado), Arthur l Frantz (horn francês/não creditado), Mitchell Lurie (clarinete/não creditado), Max Rabinowitz (piano/não creditado). Gerente da orquestra: Manny Harmon (não creditado). Direção musical e orquestração (não creditadas): Bernard Herrmann. Compositores de músicas do acervo (não creditados): Paul Sawtell, Roy Webb. Direção de diálogos: Richard Irving (não creditado). Publicidade: Stan Margulies (não creditado). Continuidade: Marvin Weldon (não creditado). Reconhecimento da produção a: International Alliance of Theatrical Stage Employees. Estúdio de gravação da trilha musical: Private Island Audio (não creditado). Sistema de mixagem de som: RCA Sound System. Tempo de exibição: 82 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1980)

domingo, 26 de novembro de 2017

O CÉLEBRE PERSONAGEM DE DANIEL DEFOE NAUFRAGA EM MARTE

O ilustre autor da Inglaterra setecentista jamais imaginaria que um dos personagens mais famosos de sua lavra naufragasse tão longe de casa e do planeta de origem. Nos anos dourados e quentes da corrida espacial, os roteiristas John C. Higgins e Ib Melchior adaptaram o romance de Daniel Defoe para o universo da ficção científica e transformaram Robinson Crusoé em prisioneiro do pouco aprazível planeta Marte. O nome do protagonista da realização do diretor Byron Haskin é Christopher 'Kit' Draper (Paul Mantee). Fica literalmente em maus lençóis após a pane provocada por um meteoro na nave espacial Mars Gravity Probe 1. O problema resulta na morte do companheiro Dan McReady (Adam West). Mais da metade na narrativa é sustentada pela atuação solitária de Mantee contra o pano de fundo da desolada paisagem marciana. Procura meios para sobreviver e tenta não enlouquecer com o contexto. A situação só não piora por contar com a companhia de Mona — macaca aranha de teste que sobreviveu ao impacto com o planeta — e pela possibilidade de comunicação com a base de operações em Terra. Evidentemente, Marte proporcionará ao náufrago a companhia de um Sexta Feira (Victor Lundin). Um dos principais atrativos do filme é a direção de fotografia do fordiano Winston C. Hoch: converteu as locações, principalmente o californiano Vale da Morte, em crível paisagem alienígena. Dentre os filmes de ficção científica anteriores a 2001: uma odisseia no espaço (2001: a space odyssey, 1968), de Stanley Kubrick, Robinson Crusoé em Marte (Robinson Crusoe on Mars, 1964) é dos mais atraentes, ainda mais para uma criança que acompanhava com vivo interesse os lances e a nomenclatura da corrida espacial. Vê-lo em 1966, aos 10 anos, foi acontecimento dos mais empolgantes. O diretor Byron Haskin, familiarizado com o gênero, é responsável pelo também memorável A guerra dos mundos (The war of the worlds, 1953). Quando Mark Watney (Matt Damon) se viu abandonado no planeta vermelho no recente Perdido em Marte (The Martian, 2015), de Ridley Scott, poderia permanecer tranquilo. Tinha o ilustre precedente de Christopher 'Kit' Draper em Robinson Crusoé em Marte. Segue apreciação escrita em 1976. 






Robinson Crusoé em Marte
Robinson Crusoe on Mars

Direção:
Byron Haskin
Produção:
Aubrey Schenck
Devonshire Productions, Paramount
EUA — 1964
Elenco:
Paul Mantee, Victor Lundin, Adam West, Macaco aranha Barney.



Na prancheta, durante a concepção de A conquista do espaço (Conquest of space, 1955)
O diretor Byron Haskin, Chesley Bonestell e Willy Ley - autores da história - e o produtor George Pal
 



Para a época anterior a 2001: uma odisseia no espaço (2001: a space odyssey, 1968), de Stanley Kubrick — quando toda uma atmosfera envolvida em temor e otimismo agitava os anos ainda iniciais da corrida espacial disputada por soviéticos e estadunidenses no quente momento da Guerra Fria —, este filme é primorosamente delicioso. Assisti-lo em 1966 foi uma experiência ímpar. Era uma criança que acompanhava com vivo interesse notícias sobre Vanguard, Echo, Intelsat, Mercury, Telstar, Gemini e Apollo pelo lado ocidental; além de Sputnk, Luna, Venera, Vostok, Voskhod e Soyuz pelo vermelho. “A Terra é azul”, afirmou maravilhado o cosmonauta russo Yuri Alekseievitch Gagarin a bordo de uma Vostok em 12 de abril de 1961. Estávamos rompendo os limites da nossa atmosfera e começando a acumular algum conhecimento de base empírica sobre mundos próximos: Lua, Marte e Vênus já eram visitados e explorados por sondas espaciais. No auge da audácia, o assassinado Presidente dos EUA John F. Kennedy afirmou: o país enviará homens à Lua até o final da década de 60. Esforços não seriam poupados para transformar essa pretensão em realidade — cumprida em 1969 — e, temerariamente, escalar Marte como o próximo corpo celeste a ser pessoalmente alcançado.


Robinson Crusoé em Marte é, para a primeira metade dos anos 60, uma ousada e — por que não? — plausível aventura de ficção científica — em tudo alimentada por esperanças suscitadas pela ciência em descobertas até então recentes. Logo ao começo tem a coragem de informar: “Este filme é cientificamente autêntico. Está apenas a alguns passos à frente da realidade presente”. Hoje, certamente, a mensagem otimista da abertura não mais se sustenta. Os próprios avanços da ciência derrubaram muito conhecimento considerado objetivo e de ponta para a época da realização. Infelizmente, a ficção científica mais ousada corre sempre o risco de ser superada pelo desenvolvimento da pesquisa. Ainda assim, historicamente, Robinson Crusoé em Marte não deixa de ser a materialização de previsões que cativaram e embalaram projetos e sonhos em um dado momento. Quanto foi produzido, era um filme perfeitamente afinado com as conjecturas e dados embrionários acerca de Marte. Adiantou uma imagem perfeitamente possível do que poderia ser uma exploração humana no solo do místico planeta vermelho. Por isso, mesmo com o avanço dos anos, pode ser classificado como inteligente produto da ficção científica materializada pelo cinema. A narrativa, brilhantemente executada contra o pano de fundo de uma cenografia das mais impressionantes, transforma as locações nas quais as externas foram obtidas — o Castle Dome Peak em Yuma, no Arizona, e, principalmente, o californiano Death Valley National Park — em ambientações exóticas plenamente verossímeis.


A realização de Byron Haskin também pode ser considerada divisora de águas no fértil terreno do gênero, desde os anos 50. Não envolve o chamamento de cientistas e governantes à responsabilidade social e política como O dia em que Terra parou (The day the Earth stood still, 1951), de Robert Wise. Escapa das abordagens metafísicas de Planeta proibido (Forbidden planet, 1956), de Fred M. Wilcox, e O incrível homem que encolheu (The incredible shrinking man, 1957), de Jack Arnold. Não adapta livros clássicos sobre ousadas antecipações futuristas qual A máquina do tempo (The time machine, 1960), de George Pal. Muito menos serve de metáfora ao extravasamento de pavores políticos ocidentais como Voando para Marte (Flight to Mars, 1951), de Lesley Selander; Marte, o planeta vermelho (Red planet Mars, 1952), de Harry Horner; Invasores de Marte (Invaders from Mars, 1953), de William Cameron Menzies; O cérebro do planeta Arous (The brain from planet Arous, 1957), de Nathan Juran; Invasão dos discos voadores (Earth vs. the flying saucers, 1956), de Fred F. Sears; A guerra dos mundos (The war of the worlds, 1953), de Byron Haskin; e, entre muitos outros, o assustador e próximo Vampiros de almas (Invasion of the body snatchers, 1956), de Don Siegel. Como o próprio título indica, Robinson Crusoé em Marte é livre transposição para o espaço sideral do clássico romance de Daniel Defoe, escrito em 1719. Como o original, é uma aventura sobre sobrevivência, solidão, adaptação, confiança, amizade e esperança em situação de adversidade. Ah! Sim! Um personagem batizado como Sexta Feira também dá as caras em solo marciano.


Byron Haskin não é estranho à ficção científica. Dirigiu, 11 anos antes, uma adaptação do clássico livro de H. G. Wells: o homônimo A guerra dos mundos. Também fez A conquista do espaço (Conquest of space, 1955) e Da Terra à Lua (From the Earth to the Moon, 1958). Tornou-se, em 1950, pioneiro do lançamento da Walt Disney Productions nos filmes live-action com A ilha do tesouro (Treasure island, 1955). Foi, ao longo de quase 20 anos, desde 1925, expert em efeitos especiais — principalmente para a Warner Brothers —, qualidade que o favorecia à frente de um projeto como o de Robinson Crusoé em Marte. Porém, as trucagens não são o forte do filme — pois a Paramount reduziu a previsão orçamentária inicialmente substanciosa. Tanto que as exigências de maior vulto com a criação de efeitos foram resolvidas com a reciclagem de materiais de A guerra dos mundos — as naves alienígenas — e Da Terra à Lua — os trajes espaciais nos quais os escravagistas siderais são rapidamente mostrados. Quase todo o resto decorre da aplicação de simples exercícios pirotécnicos. Portanto, Robinson Crusoé em Marte arranha o patamar da produção B — o que não deixa de ser interessante: leva ao uso mais inteligente e preciso da imaginação.


Um dos principais valores por trás da magia da realização é o talentoso diretor de fotografia Winston C. Hoch, responsável pelas imagens de clássicos de John Ford como O céu mandou alguém (3 godfathers, 1948), Legião invencível (She wore a yellow ribbon, 1949), Depois do vendaval (The quiet man, 1950) e Rastros de ódio (The searchers, 1956). Transformou a paisagem árida e acidentada do Death Valley National Park em crível representação do que poderia ser o relevo marciano. Garantiu ao filme um dos mais belos e instigantes visuais de ficção científica do período — se é que se pode falar disso para um planeta de aparência pouco convidativa. Além das imagens da superfície, há as cavernas, escarpas, cores maravilhosas e reluzentes de interiores, rochas, céus, horizontes e crepúsculos.


Infelizmente, para o lançamento a Paramount cometeu a ousadia de não promover uma campanha à altura. Tratou o filme como qualquer produção corriqueira. O resultado foi o fracasso de bilheteria. Pena! Tinha, naquele preciso momento, potencial para cair no gosto do público. Aliás, os próprios executivos da companhia e o produtor Aubrey Schenck ficaram maravilhados com o produto final. Chegaram a planejar uma espécie de continuação, ao fim cancelada: Robinson Crusoe in the invisible galaxy.


A aventura começa com a nave Mars Gravity Probe 1 em veloz avanço a uma operação de circum-navegação do planeta vermelho. A bordo estão o Comandante Christopher 'Kit' Draper (Mantee), o Coronel Dan McReady (West) e Mona (Barney) — macaca aranha de teste pronta para qualquer sacrifício. Felizmente, caiu nas boas graças da tripulação e será poupada.


Christopher 'Kit' Draper (Paul Mantee), comandante da Mars Gravity Probe 1 

Dan McReady (Adam West) e Mona (macaco aranha Barney)

A esperta Mona (macaco aranha Barney)


Um asteróide flamejante entra em rota de colisão com o veículo. Este, após rápida alteração no curso, é irremediavelmente atraído pela gravidade do planeta — contra o qual pode se chocar. Aparentemente, o problema parece não afetar os astronautas — devem ter passado por diversas situações idênticas ou tiveram condicionamento dos melhores! Calmamente, abandonam a Mars Gravity Probe 1 em módulos individuais, em tudo semelhantes aos utilizados na exploração da superfície lunar pelo Projeto Apollo cinco anos depois. Draper é o primeiro; a seguir, juntos, McReady e Mona.


As cápsulas pousam distantes uma da outra, em terrenos acidentados e instáveis. De imediato, há a preocupação com a sobrevivência. Parte do equipamento emergencial de Draper é queimada por uma das muitas bolas de fogo que flutuam próximas à superfície marciana. O ar local é respirável por curtos momentos. A princípio não há água e alimentos no planeta. Abrigado emergencialmente em uma gruta, o astronauta conta com alguns tubos de comida pastosa concentrada e balões de oxigênio para sessenta horas. As explorações perigosas que faz no entorno nada revelam de substantivo, a não ser uma pedra amarela, porosa e incandescente. Os problemas com a iluminação e o aquecimento noturno — quando a temperatura diminui abruptamente — estão resolvidos. Quanto ao mais, percebe-se uma monótona aridez por todos os lados. O aparelho portátil de comunicação com a Terra felizmente funciona. Pelo visto, dispensa bateria e outras fontes de energia. De concreto, só se presta a rápidas e frustrantes conversações que diminuem a angústia da solidão. O sofrimento do náufrago aumenta com a permanente visão da Mars Gravity Probe 1 cruzando o céu marciano. A nave não colidiu com o planeta. Foi apenas aprisionada em sua órbita. Transformou-se em incômodo satélite.


Christopher 'Kit' Draper (Paul Mantee), diante do módulo espacial, chega em Marte


Mais seguro, Draper sai em busca de McReady. Encontra-o morto. Apenas Mona sobreviveu ao pouso e, felizmente, não tem restrições para respirar o rarefeito oxigênio do planeta. Uma sensação de desânimo de apossa do personagem. Deixa-se tomar pelo sono da morte. Entretanto, é renovado por um sopro vital. Descobre que as pedras incandescentes processam oxigênio. Logo encontra um modo de armazená-lo em grande quantidade. Com a providencial ajuda de Mona, que parece não sentir fome e sede, descobre nas proximidades outra caverna — um abundante reservatório de água em meio ao qual cresce um vegetal de frutos comestíveis e semelhantes a salsichas.


A sobrevivência no longo prazo desse Robinson Crusoé está assegurada. Passaram-se quatro meses. Com engenho e todo o tempo disponível, transformou a caverna de simples abrigo em residência das mais operacionais, abastecida com água canalizada e alimentos cultivados ao alcance da mão. Das pedras esculpiu mesa, cadeiras, panelas e pratos. O vegetal das "salsichas" fornece fibras transformadas por tecelagem rudimentar em eficazes agasalhos.


Christopher 'Kit' Draper (Paul Mantee) sepulta Dan McReady (Adam West)


O grande interesse do filme, em sua primeira parte — de aproximados 60 minutos —, é garantido pelo ótimo desempenho de Paul Mantee como um sobrevivente que, auxiliado por sorte e engenho, descobre e inventa meios para permanecer vivo. O problema central, agora, é o desconsolo da solidão. Em uma noite acorda assustado com batidas à porta do abrigo. Depara-se com o fantasma mudo de McReady. Tenta desesperada e inútil comunicação com o espectro, até se descobrir vítima de um pesadelo. Por sorte, pode "conversar" com Mona e, em alguns períodos, com a Terra via aparelho de comunicação. Este misto de telefone e televisão se revelou uma alternativa plenamente cinematográfica para informar ao longínquo centro de operações — e de quebra ao espectador — os meios encontrados para solucionar determinados problemas. No mais das vezes o que se vê é o ator contracenando com ele mesmo, ou interagindo com a paisagem. Um dos melhores momentos, ao fim da primeira metade do filme, apresenta Draper em desfile Marte afora e na execução de Dixie em uma gaita de foles improvisada, como se buscasse avidamente por algum aplauso e reconhecimento. Nisso, por volta dos 65 minutos de narrativa, faz inquietante descoberta.


Encontra restos mortais mal enterrados. Não são de McReady, mas de alguém assassinado. Ao sofrimento provocado pelo isolamento se junta o paradoxal pavor de não estar só e em situação de risco. Consegue, por precaução, destruir remotamente a Mars Gravity Probe 1 da órbita incansável. Não demora a perceber estranhos e belicosos objetos voadores — as naves de A guerra dos mundos — imediatamente chamados de "interplanetários". Pipocam no céu marciano e disparam cargas mortais de algo semelhante a raios laser contra a superfície. Levado a uma investigação arriscada, descobre uma exploração mineira tocada por trabalho escravo. Logo é encontrado por um evadido caçado pelas naves. Não há tempo para reações prolongadas de surpresa. Devem se abrigar o quando antes.


As naves dos alienígenas belicosos, recicladas de A guerra dos mundos (The war of the worlds, 1953), de Byron Haskin


Seguros na caverna, passam a se conhecer. A comunicação é inicialmente difícil. O estranho demonstra medo e não fala. Draper tenta tranquilizá-lo e, evidentemente, batiza-o de Sexta Feira (Lundin). É natural de um planeta da constelação de Orion. Veste algo como um bermudão e protege a cabeça com um tipo de capuz. Para respirar, vale-se de pílulas fornecidas pelos escravagistas e semelhantes a confeitos de chocolate. Produzem oxigênio e o transportam diretamente ao sangue sem a intermediação dos pulmões. A relação, inicialmente assimétrica e marcada pela cautela, torna-se mais equilibrada quando o recém chegado começa a falar e a explicar a situação e, principalmente, após salvar a vida do terrestre.



Acima e abaixo: Christopher 'Kit' Draper (Paul Mantee) e Sexta Feira (Victor Lundin)


Juntos, Draper e Sexta Feira fazem o reconhecimento da área e chegam ao campo de trabalho forçado, agora abandonado. Infelizmente, todos os escravos foram mortos. Sabem que as naves podem retornar e, por isso, precisam abandonar a região rapidamente. Nisso, vulcões entram em erupção. Sexta Feira adianta que os rios de lava são responsáveis pela formação dos famosos e enigmáticos canais no solo marciano. Empreendem acidentada jornada rumo a um dos pólos gelados do planeta, sob risco da falta de água e do racionamento de oxigênio. Quando tudo parecia perdido, chega da Terra a nave de resgate.


A bordo da Mars Gravity Probe 1: Dan McReady (Adam West) e  Christopher 'Kit' Draper (Paul Mantee) no visor


Ao fim, apesar de todas as previsibilidades da história — decorrentes do conhecimento do romance de Daniel Defoe —, sobra um filme muito bem concebido e, na medida permitida pela ciência e pela ficção, bastante preciso. As soluções encontradas pelo náufrago espacial para garantir a própria sobrevivência são bastante factíveis e todas decorrem da combinação do acaso com o engenho, ainda que algumas vezes advenha a impressão de que a força externa de um Deus Ex Machina estivesse operando decisivamente. Por mais de 60 minutos a solitária atuação de Paul Mantee soube segurar o interesse pela narrativa. Conseguiu transportar os espectadores para o centro da dramática situação que vivenciava. É o que pode ser classificado como o máximo de empatia. Convenceu dramaticamente, principalmente ao alucinar com a visão do fantasma de McReady na caverna. Victor Lundin também faz uma condizente Sexta Feira, apesar da pobreza conceitual dos adereços que usa. Os roteiristas John C. Higgins e Ib Melchior foram particularmente felizes quando permitiram que se expressasse verbalmente numa língua feita de sinais e termos da extinta cultura Maia. Lundin passou a impressão de ser um ator talentoso. Valeu-se dos olhos e das expressões faciais para transmitir sensações de insegurança e estranhamento nos momentos que se seguiram ao encontro com Draper. Inicialmente não falava e nem por isso teve que apelar para esgares exagerados e gesticulação excessivamente apavorada. Infelizmente, Mantee e Lundin não tiveram muito sucesso em suas carreiras. Poderia ser diferente se a Paramount não cometesse o despautério de prejudicar o lançamento de Robinson Crusoé em Marte.





Roteiro: John C. Higgins, Ib Melchior, com base em Robinson Crusoe, novela de Daniel Defoe. Direção de fotografia (Technicolor, Cinemascope): Winton C. Hoch. Música: Van Cleave. Montagem: Terry O. Morse. Produção executiva: Edwin F. Zabel. Consultor técnico: Edward V. Ashburn. Maquiagem: Bud Bashaw Jr., Wally Westmore. Efeitos especiais: Lawrence W. Butler. Processamento fotográfico: Farciot Edouart. Assistentes de direção: Robert Goodstein, Arthur Jacobson. Som: Harold C. Lewis, John Wilkinson. Direção de arte: Arthur Lonergan, Hal Pereira. Consultor de cor pela Technicolor: Richard Mueller. Edição de som: Howard Beals (não creditado). Arte matte: Albert Whitlock (não creditado). Assistente de câmera: Murray Young (não creditado). Músicos (não creditados): Larry Bunker (tambores), Jack Cookerly (órgão), Ivan Ditmars (órgão), Red Mitchell (baixo), Ted Nash (saxofone). Mixagem da trilha musical: Michael J. McDonald (não creditado). Orquestração: Fred Steiner (não creditado). Direção musical: Irvin Talbot (não creditado). Empresa de criação de efeitos especiais: Butler-Glouner. Sistema de mixagem de som: Westrex Recording System. Tempo de exibição: 110 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1976)