domingo, 18 de maio de 2014

NO JAPÃO, SAMUEL FULLER DEVASSA A 'CASA DE BAMBU'

Jornalista, romancista, roteirista, combatente, cineasta e iconoclasta, Samuel Fuller nunca foi um privilegiado. Sempre à margem dos grandes esquemas de produção, manipulava orçamentos irrisórios que lhe permitiam arranhar o patamar do padrão "B". Em compensação, gozava de mais liberdade para se mover em terrenos problemáticos ao cinema dos Estados Unidos. Tinha Hollywood como centro de infantilização. Inovador, admirado por críticos franceses e vanguardas surgidas com a Nouvelle Vague, dirigiu 22 títulos, considerando-se apenas os destinados ao cinema. Casa de bambu (House of bamboo, 1955) não está entre suas realizações mais notáveis, provavelmente por causa da intromissão dos produtores no resultado final. Mas é um policial de ação rápida, precisa e consistente. Possibilita o conhecimento de uma narrativa econômica e dinâmica. A história é ambientada no Japão do pós guerra, ainda sob ocupação americana. Um dos seus principais intérpretes é o pouco valorizado e verdadeiro Robert Ryan, ator da predileção do cineasta, ainda que tenham trabalhado juntos apenas desta vez. A apreciação de 1983 foi revista e atualizada em 1991.






Casa de bambu

House of bamboo


Direção:
Samuel Fuller
Produção:
Buddy Adler
20th Century-Fox
EUA — 1955
Elenco:
Robert Ryan, Robert Stack, Cameron Mitchell, Shirley Yamaguchi, Brad Dexter, Biff Elliott, Sessue Hayakawa, Sandro Giglio, Elko Hanabusa e os não creditados Harry Carey Jr., Peter Gray, Robert Quarry, DeForest Kelley, John Doucette, Teru Shimada, Robert Hosai, Jack Maeshiro, May Takasugi, Robert Okazaki, Neyle Morrow, Barry Coe, Reiko Hayakawa, Sandy Azeka, Samuel Fuller, Troupe Shochiku do Teatro Kokusai, Clifford Arashiro, Fred Dale, Fuji, Kazue Ikeda, Kinuko Ann Ito, Frank Jumagai, Robert Kino, Frank Kwanaga, Harris Matsushige, Joanna Mitchell, Rollin Moriyama, Reiko Sato, Barbara Uchiyamada, Richard Loo.



O iconoclasta Samuel Fuller


Sabiamente, setores mais arejados da crítica consideram em alta conta o cinema de Samuel Fuller. Reconhecem-no como inovador de temas e, de longe, um dos mais talentosos diretores surgidos no cinema estadunidense do pós Segunda Guerra Mundial. Louvam-lhe especialmente a capacidade de se locomover com agilidade por universos complicados, estranhos, tortuosos, amorais e ambíguos, captados numa visão aguçada e nuançada de mundo. Em Fuller não há espaço às encenações glamourosas, muito menos ao maniqueísmo redutor e simplista tão caro ao cinema dos Estados Unidos em geral. Por esse motivo, provavelmente, ele nunca contou com a generosidade dos grandes orçamentos. Sua filmografia — excluindo os roteiros que escreveu para outros cineastas e trabalhos para a TV — soma 22 títulos, todos enquadrados no padrão “B” de produção.


Dentre as realizações que conheço de Samuel Fuller, tenho afeição especial pelo duro e seco drama bélico Mortos que caminham (Merrill’s marauders, 1961), que tanto me marcou na infância. Fortes impressões também foram deixadas por Eu matei Jesse James (I shot Jesse James, 1949), Baionetas caladas (Fixed bayonets!, 1951), A dama de preto (Park row, 1952), Anjo do mal (Pickup on South Street, 1953), Dragões da violência (Forty guns, 1957), Proibido! (Verboten!, 1959), Paixões que alucinam (Shock corridor, 1963), O beijo amargo (The naked kiss, 1964); mais recentemente, Agonia e glória (The Big Red One, 1980) e Cão branco (White dog, 1982). Casa de bambu não está entre os trabalhos mais festejados do cineasta. Mesmo assim, não deixa de ser atraente — ao menos segundo os meus critérios — pelo fato de ter Robert Ryan entre os intérpretes. Esse ator de semblante duro, expressão cética, cansada e amarga, nunca foi devidamente apreciado. No entanto, sempre me fascinou. Suas atuações despretensiosas emprestam credibilidade e sobriedade aos personagens. Dão a impressão de que habitam a humanidade real e podem ser encontrados e reconhecidos nas ruas de qualquer lugar.




Acima e abaixo: Robert Ryan interpreta Sandy Dawson em Casa de bambu


A vida de Samuel Fuller se desdobra nas atividades de jornalista, romancista, roteirista, soldado e realizador cinematográfico. A primeira experiência profissional acontece no New York Journal, onde entra em 1924 na função de boy. Quatro anos depois se especializa na crônica policial. Nesse campo desenvolve amplo contato com o submundo durante os anos da Grande Depressão. Adquire aí a base para se tornar autor de novelas e contos criminais a partir de 1931[1]. São trabalhos obscuros que, não obstante, fornecem inspiração a muitos roteiristas de Hollywood. Publica o primeiro romance, Burn, baby, burn, em 1935, logo seguido de Test tuby baby (1936), Make up and kiss (1936) e The dark page (1944) — premiado como Melhor Romance Psicológico pela crítica literária estadunidense[2]. The Big Red One — divisão de infantaria à qual esteve incorporado durante a Segunda Guerra Mundial — batiza o romance autobiográfico escrito no começo dos anos 60[3]. Com esse mesmo título é levado ao cinema, em 1980, pelo próprio autor. No Brasil, é conhecido como Agonia e glória.


Escorado na crônica e no romance passa a escrever roteiros. O primeiro, em parceria com Edmund Joseph, é filmado por Boris Petroff em 1936: Hats off. Outros, para citar apenas alguns, originam Bandos de Nova York (Gangs of the New York, 1938), de James Cruze; Confirme ou desminta (Confirm or deny, 1941), iniciado por Fritz Lang mas creditado a Archie Mayo que o terminou; Power of the press (1942), de Lew Landers; Apaixonados (Shockproof, 1949), de Douglas Sirk; e Escândalo (Scandal Sheet, 1952), de Phil Karlson. Segundo consta, não aprecia nenhuma dessas transposições[4], razão que o faz passar à direção.


Mobilizado em 1942, Fuller combate no Norte da Sicília, África, Normandia (desde o Dia D), Bélgica, Alemanha e Tchecoslováquia, sempre na infantaria e no The Big Red One. Recebe várias condecorações[5]. Três anos de intensa presença no front foram sintetizados num breve comentário: “O único heroísmo que existe na guerra é sobreviver”. Não só sobreviveu aos conflitos bélicos como ao próprio cinema, por ele definido como “Um campo de batalha”. Mesmo situado em posição marginal num sistema de produção que valoriza acima de tudo altos investimentos e grandes retornos, consegue firmar o nome. Torna-se referência obrigatória para cineastas de vanguarda como Jean-Luc Godard e Win Wenders. O primeiro o escalou para interpretar a si próprio numa sequência de O demônio das onze horas (Pierrot le fou, 1965). O outro lhe confiou um papel em O amigo americano (Der americanische freund, 1977). Todos louvam sua capacidade de consolidar carreira e filmografia a partir do nada, da quase total carência de recursos.



O sargento Kenner (Robert Stack) travestido de investigador Eddie Spainer em Casa de bambu


Na obra de Samuel Fuller não existem heróis à maneira das convenções hollywoodianas; a realidade não é enfeitada; a condição humana não é idealizada. Seus personagens são tipos duros, moldados no convívio com adversidades. Quase todos possuem pés na marginalidade. São, em geral, bandidos, prostitutas, soldados, policiais; sobreviventes. Não veem com muita clareza os códigos e valores que legitimam as sociedades. Exemplo disso é o Bob Ford (John Ireland) de Eu matei Jesse James James. Ele não encontra barreiras morais para assassinar o melhor amigo e embolsar a recompensa que possibilitará o seu casamento.



Shirley Yamaguchi  no papel de  Mariko Nygoia


Casa de bambu, filmado no Japão, conta uma história policial ambientada em Tóquio. Acompanha a missão de Kenner (Stack) — sargento do exército dos Estados Unidos escalado para desbaratar uma quadrilha formada exclusivamente por ex-combatentes patrícios. A ação é detonada quando o grupo ataca um comboio militar, guardado por força conjunta de soldados americanos e japoneses. Todos são mortos, estrangulados com correntes — marca registrada dos criminosos liderados por Sandy Dawson (Ryan), cuja norma é não socorrer colegas feridos mas eliminá-los. A organização se iguala à Máfia. Adiante, ataca um carro blindado. Webber (Elliot), gravemente ferido na operação e sem tempo para ser abatido pelos companheiros, cai prisioneiro. Falece no hospital, mas fornece informações à polícia. Com ele é encontrado o retrato da esposa japonesa, Mariko Nygoia (Yamaguchi). O passo seguinte é a chegada a Tóquio do Sargento Kenner. Sua identidade é camuflada sob o nome de Eddie Spainer — ex-combatente, atualmente preso nos Estados Unidos, e companheiro de farda de Weber. Dessa forma Kenner se apresenta a Mariko, em busca de informações.



Robert Stack no papel do Sargento Kenner ou Eddie Spainer


Os primeiros minutos de Casa de bambu encenam uma ação rápida, contada de forma concisa e consistente, exemplo da economia narrativa do diretor. Kenner não espera para agir. Põe-se em operação tão logo desembarca. As informações de Mariko não contêm novidades. Ela desconhecia as atividades do marido. Diante disso, o investigador, à sua maneira determinada, força o encontro com os bandidos. Conta com a ajuda inicialmente reticente da viúva. Ambos acabam apaixonados. Para a época — quando ainda se ouviam os ecos da Segunda Guerra — o relacionamento amoroso entre um americano e uma japonesa revela não só um tremendo avanço como assinala a visão não preconceituosa do diretor.



Mariko Nygoia (Shirley Yamaguchi)


Fosse Casa de bambu um filme comum, daria para dizer que Kenner é o herói da história. Mas a ação e a aparência de Robert Stack não dão razão a isso. Seu personagem é desprovido de brilho. Seu rosto é fosco, impenetrável. Sua caracterização inicial reforça essa impressão. Tem a barba por fazer, veste roupas sujas e amarrotadas, assemelha-se a um vagabundo maltrapilho. Tanto que a primeira reação de Sandy Dawson, tão logo Kenner se infiltra no bando, é lhe adiantar dinheiro para comprar roupas “decentes” e tomar banho. No fosse pelo perfil duro e impassível, o personagem poderia ser equiparado ao John Doo da comédia Adorável vagabundo (Meet John Doe, 1941), de Frank Capra.



Sandy Dawson (Robert Ryan), à direita, coordena as ações do grupo "mafioso" que comanda no Japão 


O roteiro de Harry Kleiner é calcado em Rua sem nome (Street with no mane, 1949) de William Keighley[6]. Neste filme, um investigador do FBI (Richard Widmark) se infiltra numa quadrilha com o objetivo de desbaratá-la.


Casa de Bambu tem narrativa seca, objetiva e direta. Fuller não perde tempo com firulas. Preocupa-se apenas em contar a história. O que se vê é parecido a um conto cinematográfico dotado da dinâmica de uma reportagem de jornal, igual a tantas que o diretor provavelmente escreveu em seus tempos de cronista policial. Infelizmente, o resultado final foi lapidado pela 20th. Century-Fox à revelia do diretor, de modo a abrandar a agressividade do estilo narrativo e, consequentemente, despindo o filme de toda a carga emocional que poderia conter. Tal deficiência resulta paradoxal à realização de um cineasta que também definiu o cinema como “Emoção”; o resto não passando de "Conversa”.


Sequências consideradas exemplares pela crítica, a francesa principalmente, tiveram impacto consideravelmente reduzido com a intervenção saneadora da 20th Century-Fox: o assassinato de Griff (Mitchell) no banheiro e os instantes finais, quando Sandy, perseguido no parque de diversões, é acuado numa variante de roda gigante e abatido por Kenner. O epílogo, da maneira como foi filmado é totalmente anticlimático. Alguns consideram-no digno de Hitchcock — cineasta da admiração de Fuller justamente pela capacidade de contar uma história a partir do nada. Porém, nesse caso a comparação não procede.


Em um ponto da história Fuller não teve como se aprofundar, devido aos limites impostos pela moral hollywoodiana. Trata-se da atração de Sandy Dawson por Kenner. Há aí nítida conotação homossexual. Ou será que dá para aceitar a explicação do personagem de Ryan, alegando não ter matado Kenner quando este foi ferido porque se tratava do seu primeiro trabalho?





Acima e abaixo: o clímax de Casa de bambu

  
Merece destaque a fotografia em tons pastéis de Joseph MacDonald, utilizando a cor pela primeira vez.


Fuller, praticamente irreconhecível, faz ponta como policial japonês.


Casa de bambu é o único trabalho de Robert Ryan sob as ordens do diretor. Não obstante é um dos atores preferidos de Fuller. O outro é Lee Marvin.







Direção de fotografia (Cinemascope, Color DeLuxe): Joseph MacDonald. Direção de arte: Lyle R. Wheeler, Addison Hehr. Decoração: Walter M. Scott, Stuart A. Reiss. Efeitos fotográficos especiais: Ray Kellogg. Montagem: James B. Clark. Direção de guarda-roupa: Charles Le Maire. Roteiro: Harry Kleiner. Diálogos adicionais: Samuel Fuller. Música: Leigh Harline. Direção musical: Lionel Newman. Letra da canção título: Jack Brooks (não creditado). Orquestração: Edward B. Powell. Assistente de direção: David Silver. Maquiagem: Ben Nye. Penteados: Helen Turpin. Som: John D. Stack, Harry M. Leonard. Mixagem de som: Stereo. Consultor de cor: Leonard Doss. Gerente de unidade de produção (não creditado): Saul Wurtzel. Contrarregra (não creditado): Don B. Greenwood. Efeitos especiais (não creditados): Fred Etcheverry. Suporte à câmera (não creditado): Frank Cory. Assistente de câmera (não creditado): Hugh Crawford. Eletricista-chefe (não creditado): Les Everson. Operador de câmera (não creditado): Frank V. Phillips. Guarda-roupa (não creditado): Dick James. Supervisão de coral (não creditado): Ken Darby. Continuidade (não creditada): Teresa Brachetto. Publicidade (não creditada): John Campbell. Companhia de distribuição da trilha musical: Intrada. Serviços de mixagem de som: Western Electric Recording em quatro canais estereofônicos. Tempo de exibição: 102 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1983; revisto e atualizado em 1991)




[1] GUINLE, Pierre. Biofilmographie de Samuel Fuller. Présence du cinéma. Paris, n. 19, dez./1963-jan./1964. p. 20.
[2] Ibidem.
[3] Ibidem.
[4] Ibidem.
[5] Ibidem.
[6] EWALD FILHO, Rubens. Os filmes de hoje na TV. São Paulo: Global, 1975. p. 44.