domingo, 28 de dezembro de 2014

SOB EFEITO DE "O DOCE VENENO DO ESCORPIÃO" RAQUEL PACHECO SURFA COMO BRUNA

O filme de estreia do realizador Marcus Baldini é baseado numa das personalidades mais exploradas pela mídia brasileira nos últimos anos: Raquel Pacheco — relaxada, desajeitada e solitária filha adotiva de classe média paulistana —, catapultada para a fama sob a alcunha de Bruna Surfistinha. Ela abandonou a pretensão de se tornar psicóloga para se firmar como prostituta e ascender meteoricamente como bem sucedida profissional do sexo. Passou a ser conhecida como "A garota de programa mais famosa do Brasil", principalmente por se tornar fenômeno da Internet, o que lhe rendeu o prêmio "Revelação Interativa do Ano". De sua autobiografia, O doce veneno do escorpião, nasceu o filme Bruna Surfistinha. Trata-se de narrativa linear formalmente bem executada. No entanto, tem valor mediano como realização cinematográfica na tentativa de estabelecer diálogo fácil com o grande e pouco exigente público. Mas se a direção não ousa, Deborah Secco se entrega à personagem com segurança e desenvoltura. 







Bruna Surfistinha

Direção:
Marcus Baldini
Produção:
Marcus Baldini, Roberto Berliner, Rodrigo Letier
Damasco Filmes, Rio Filmes, TV Zero, Teleimage
Brasil — 2011
Elenco:
Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Fabíula Nascimento, Cristina Lago, Guta Ruiz, Clarisse Abujamra, Luciano Chirolli, Sérgio Guizé, Simone Iliescu, Érika Puga, Brenda Lígia, Gustavo Machado, Juliano Cazarré, Rodrigo Dourado, Roberto Áudio, Plínio Soares, Sidney Rodrigues, Justine Otondo, Raquel Pacheco, Alex Sander.



Pensativo sobre a dolly, Marcus Baldini, realizador estreante


Raquel Pacheco é filha adotiva de família de classe média paulistana. Relaxada, desajeitada e solitária, é mal vista pelos colegas de colégio. Quer ser psicóloga. Porém, aos 18 anos abandona tudo e todos. Não demora a ser conhecida como Bruna, garota de programa, a mais famosa do Brasil — segundo alguns slogans. Inicia carreira no bordel de Madame Larissa. Depois, experimenta meteórica escalada rumo ao sucesso como profissional autônoma, criando o blog no qual narra o dia-a-dia e atribui conceitos aos clientes. Para suportar a alta rotatividade da carreira — que inclui atuação em filmes pornôs — passa a consumir cocaína. O vício a conduz ao endividamento com fornecedores, descontrole da vida pessoal, à perda da autoestima e ao fundo do poço. Oferece-se para fileiras de clientes a preço de ocasião. Sucumbe ao esgotamento físico e termina hospitalizada. Suas peripécias chamam a atenção de jornalistas e programas sensacionalistas, graças principalmente ao blog que a converte em fenômeno de acessos na Internet e lhe vale o prêmio “Revelação Interativa do Ano”. Resolve contar a vida de profissional do sexo no livro O doce veneno do escorpião, escrito em parceria com o jornalista José Tarquini. Lançado em 2005, ultrapassa a marca dos 250 mil exemplares vendidos. É traduzido para 15 idiomas. Atualmente, com outros dois outros livros publicados, Raquel abandonou a prostituição, mas continua a interagir com a exploração sexual como roteirista de filmes pornográficos. Está casada com ex-cliente.


Raquel Pacheco, a Bruna Surfistinha (Deborah Secco)


A história é verdadeira, seja lá o que isso signifique. Melhor dizer: é baseada em fatos. Raquel Pacheco, ou Bruna, é profissional do sexo no exato sentido de “professar”. Realiza seu trabalho com desenvoltura, pouco se importando com parceiros, preferências e situações. Não considera fatores pessoais próprios, como sentimentos e afetos. As questões relacionadas a praticar com afinco e rigor a atividade estão em primeiro lugar. É uma máquina de fazer sexo. Desumaniza-se, a ponto de se importar apenas em juntar dinheiro para alcançar a pretendida independência financeira. Não quer viver às expensas de terceiros. Por isso, diz, tão logo estreia no bordel de Madame Larissa (Morais): apesar de sentir falta dos pais (nunca mais os verá!), entrega-se à prostituição porque os ama. Isto poderia render bastante num filme de Buñuel, mas é apenas passagem pouco explorada em Bruna Surfistinha. Provavelmente, a busca de autoafirmação e o desejo de independência — mesmo por caminhos considerados socialmente tortos — expliquem esse amor aos pais. Eles pareciam esperar muito pouco da filha adotiva. Então, para Raquel, a prostituição surge como vocação, alternativa profissional como tantas. Isso fica evidente depois de o irmão Romiro (Dourado) — que constantemente a azucrinava e lhe cobrava maior rigor e determinação frente à vida — localizá-la no bordel. Diante de ameaças físicas, xingamentos enfáticos de “puta” e gritos de “Fica longe de minha família!”, ela termina o ciclo de reconhecimento de sua nova posição. Será uma puta, sem nojos e pudores. Atende a mais de trinta clientes na primeira semana. Melhora as roupas e o visual. A garotinha que sentia medo de dormir fora de casa perde as inibições por completo. Mas ainda se sente humilhada e diminuída diante de motivos que lhe evocam o passado — como fica claro na cena da loja de conveniência, ao perceber a presença de antigos colegas de escola.


Trajando jeans, a pouco promissora aluna de segundo grau Raquel Pacheco (Deborah Secco)

Raquel Pacheco (Deborah Secco) resolve abandonar os estudos para "cair na vida"


Três personagens permitem contrapontos a Bruna, oferecendo-lhe, pode-se dizer, espelhos nos quais poderia perceber seu processo de desumanização e queda. O primeiro é Hudson (Gabus Mendes), o primeiro cliente, que marcará presença em praticamente todas as etapas de sua vida. Paternal, interessa-se sinceramente por ela. Quer saber seu verdadeiro nome. Chama constantemente a atenção de Bruna para o passado e a identidade que ela pretende sepultar e esquecer. “Lembra da vida que você escolheu ao trepar com esses caras mais tarde” — diz, diante da recusa da moça em aceitar novas possibilidades de vida. O segundo é Gustavo (Cazarré), que lhe possibilitou uma entrega sincera, a ponto de fazer o serviço por conta da casa. Mas será totalmente destratado quando, ávida por dinheiro, estiver no fundo do poço. Gabi (Lago) é a terceira personagem. Também estava a serviço de Madame Larissa quando Bruna a conheceu. Por causa do vício em cocaína chegou a furtar jóias, dinheiro e outros pertences da colega. Por isso, quase vão às vias de fato. Tal não acontece porque ela vê na companheira a materialização de seus dilemas e problemas. Ficam juntas depois de expulsas do bordel. Gabi se torna uma espécie de secretária de Bruna em ascensão. Tenta lhe impor freios diante das compulsões e do endividamento decorrente do vício. Um desentendimento encerra a relação.


Raquel Pacheco, já Bruna Surfistinha (Deborah Secco), com Hudson (Cássio Gabus Mendes), primeiro cliente, amigo e confidente


Bruna Surfistinha, primeiro filme de Marcus Baldini, recebeu o prêmio “Contigo Cinema” de 2011 em diversas categorias. O público o escolheu como Melhor Filme e Deborah Secco, no papel-título, Melhor Atriz. Da parte do júri venceu nas categorias de Melhor Atriz (Secco), Melhor Atriz Coadjuvante (Fabíula Nascimento), Melhor Filme e Melhor Direção.


A realização pode ser dividida em três partes: 1) a apresentação da personagem seguida de sua permanência na casa de Madame Larissa; 2) a independência de Bruna, afirmando-se como garota de programa e produzindo o blog que a deixa famosa; e, 3) o vício em drogas e, consequentemente, o desregramento acompanhado do esgotamento físico e mental. Em nenhuma dessas partes o filme engrena totalmente. Mas não é ruim. Atinge o patamar de realização mediana, formalmente bem executada, inclusive do ponto de vista didático. O ordenamento linear da história confirma essa impressão: encena, na sequência, a opção da personagem, sua iniciação, ascensão, queda e recomeço. Também é forma de estabelecer diálogo com o grande público. Por isso, apesar do tema, encena história palatável, capaz de ser compreendida sem maiores considerações e esforços pelas plateias menos exigentes.


Raquel Pacheco ou Bruna (Deborah Secco) com as amigas e colegas de profissão


Em que pesem as ousadias do tema e da biografada, não é filme apelativo e rendido às fórmulas fáceis. Não cai nas armadilhas da glamorização e do moralismo. Sua melhor qualidade é a interpretação de Deborah Secco. A atriz realmente se entrega à personagem, com segurança e desenvoltura. Não dá nem para imaginar o que seria da realização se a produção houvesse optado por Karen Junqueira para o papel principal. Pouco pode ser dito sobre ela, principalmente por desconhecimento de causa. Mas Deborah Secco se colou de tal forma na representação de Bruna a ponto de tornar irrelevantes todas as demais candidatas.


Pode-se dizer da direção do estreante Bruno Baldini: sabe o que faz. Infelizmente, ousa muito pouco. Vai ver, tal se deve à cautela que o cercou neste primeiro trabalho, o que é perdoável. Ou — sabe-se lá! — não pode avançar além das imposições dos parceiros envolvidos na produção e exigências da própria biografada. São conjecturas, mas totalmente pertinentes.


Deborah Secco como Bruna Surfistinha 


Opções narrativas levaram a produção e o roteiro a não explorar as atividades de Bruna no cinema pornográfico e em programas televisivos de auditório.


A verdadeira Raquel Pacheco aparece na cena do restaurante: é a garçonete que atende Bruna e Hudson.


Raquel Pacheco (Deborah Secco) prestes a fazer a escolha definitiva de sua vida


O epílogo é muito bom. Mostra a jovem Raquel, assim que abandona a família, perambulando por São Paulo. A cidade e a noite se apresentam como incógnitas. A personagem avança de costas para a câmera. Na mochila de colegial se destaca um ursinho de pelúcia. O rosto interrogativo da jovem encara o espectador algumas vezes. Este se posiciona diante de uma quase criança, prestes a fazer escolha definitiva na transição para novo patamar. Esse semblante parece também se comunicar aos dilemas da Bruna madura do filme — que encontra o natural epílogo, não significando isso o fim da personagem: as imagens da jovem Raquel deixando a casa paterna deixam evidente que se trata de uma obra aberta.


Deborah Secco atua com segurança e desenvoltura no papel de Bruna Surfistinha.


O sucesso de Bruna também é explicado por outra qualidade atribuída às prostitutas: são boas ouvintes das desilusões e carências dos clientes. Estes não querem apenas sexo, mas alguém que se disponha a ouvi-los nos mais variados assuntos. Nesse quesito, segundo o filme, Bruna nunca faz ouvidos moucos. Entrega-se atentamente à audição dos parceiros, mesmo revelando, com sua expressão, a chateação que deve ser tudo isso.


Bastidores da filmagem:  a atriz Deborah Secco e o diretor Marcus Baldini discutem o roteiro


Roteiro: José de Carvalho, Homero Olivetto, Antônia Pellegrino, com base no livro O doce veneno do escorpião, de Raquel Pacheco, co-escrito por José Tarquini. Produção associada: Suzana Villas Boas, Marcelo Corpanni, Cássio Gabus Mendes, Deborah Secco, Patrick Siaretta, Bianca Villar. Produção executiva: Lorena Bondarovsky, Rodrigo Letier, Bianca Villar. Música: Gui Amabis, Rica Amabis, André Lucarelli, Tejo. Direção de fotografia (cores): Marcelo Corpanni. Montagem: Manga Campion, Oswaldo Santana. Direção de arte: Luiz Roque. Decoração: Dani Vilela. Figurinos: Leticia Barbieri. Maquiagem: Gabi Moraes. Assistentes de direção: Luciana Baptista, Gabriela Ribeiro. Mixagem de som: Miriam Biderman, Paulo Gama. Edição de diálogos: Ana Chiarini. Mixagem da regravação de som: Paulo Gama. Edição de som: William Lopes, Débora Morbi. Pós-produção de áudio: Adriano Machado. Gravação de som: Louis Robin. Mixagem sonora do master: José Luiz Sasso. Efeitos visuais: Nills Bonetti, Rafael Brandão, Marcelo Ferreira PeeJay, Rogério Marinho. Composição digital: Daniel T. Müller. Equipamentos e ferramentas: Israel Basso. Eletricista: Joel 'Junior' de Queiroz. Assistente de operador de vídeo: Pepe Mendes. Operador de steadicam: Felipe Reinheimer. Assistente de figurinos: Ana Carvalho. Consultoria legal para assuntos musicais: Caio Mariano. Instrutor de atuação: Sérgio Penna. Coordenação de produção: Renato Rondon. Coordenação de pós-produção: Leandro Scorsafava. Agradecimentos especiais: Sam Eigen, Brian Sweet. Sistema de mixagem de som: Dolby Digital. Tempo de exibição: 109 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2012)

domingo, 21 de dezembro de 2014

LEE MARVIN VERSUS GENE HACKMAN EM BRUTAL E EFICAZ RELEITURA DOS FILMES DE GÂNGSTER

Esta apreciação de A marca da brutalidade (Prime cut, 1972) é um dos meus primeiros escritos sobre cinema. O texto original, de 1974, sofreu ligeira revisão e ampliação em 1988. Mesmo assim, transparecem os sinais da época de sua inicial elaboração, com o autor mal entrado nos 18 anos. O roteiro de Robert Dillon reatualiza temas caros aos clássicos filmes de gângster. A direção objetiva do ainda promissor Michael Ritchie carrega na violência — segundo os padrões que começavam a vigorar — em narrativa pontuada de ironia e cinismo. De um lado está Nick Devlin (Lee Marvin), duro, romântico e sentimental gângster da velha guarda. Recusa rendição aos novos padrões do crime, estruturados segundo normas burocráticas e impessoais. Na outra ponta, representando a mudança temporal, está o perverso e amoral Mary Ann (Gene Hackman). Sissy Spacek, aos 22 anos, tem seu primeiro papel relevante como Poppy. 






A marca da brutalidade
Prime cut

Direção:
Michael Ritchie
Produção:
Joe Wizan
Cinema Center Films
EUA — 1972
Elenco:
Lee Marvin, Gene Hackman, Angel Tompkins, Gregory Walcott, Sissy Spacek, Janit Baldwin, William Morey, Clint Ellison, Howard Platt, Les Lannom, Eddie Egan, Therese Reinsch, Bob Wilson, E. Lund, Gordon Signer, Gladys Watson, Hugh Gillin Jr., David Savage, Graig Chapman, Jim Taksas, Wayne Savagne e os não creditados Jerry Tracey e Judy Williams.



O diretor Michael Ritchie, talento que se perdeu



É a segunda realização do então promissor Michael Ritchie, revelado logo na estreia em Os amantes do perigo (The downhill racer, 1969). Após A marca da brutalidade assinou O candidato (The candidate, 1973), que parecia a confirmação plena de um talento. Mas os trabalhos posteriores decepcionaram. Atualmente, Ritchie não goza da menor visibilidade. Sua filmografia é preenchida por obras pueris e indefensáveis.


A marca da brutalidade é releitura atualizada dos filmes de gângster. A narrativa violenta, objetiva, carregada de ironia e cinismo, vai direto ao ponto. Não há nada que a desvie. É sustentada pela onipresença de Lee Marvin — eficaz e verossímil como de hábito — na pele do irlandês Nick Devlin, gângster das antigas, de métodos próprios, sangue quente e poucas palavras. Mas a capa da dureza abriga um sentimental que resiste à descaracterização imposta pela penetração de regras burocráticas e impessoais nas estruturas do crime. Recusa-se a abandonar Chicago. Apesar de decadente, a cidade continua a lhe sorrir com certo charme. Kansas City é o centro promissor. Aí o chefão tem nome de mulher: Mary Ann (Hackman). Atua sob fachada legal da agropecuária e processamento de carnes. Mas não é tão independente como pensa. Deve 500 mil dólares a Jake (Egan) — mandachuva de Chicago — e se recusa a pagar. Três tentativas de cobrança terminam com os emissários mortos. Quando o filme começa, o terceiro agente é processado como salsicha aos cuidados do truculento e boçal Weenie (Walcott), irmão de Mary Ann. Em poucos dias Jake recebe um pacote de embutidos —, os restos mortais do seu serviçal.



Acima e abaixo: Lee Marvin como Nick Devlin, gângster da velha guarda

  
O jeito é apelar para Nick, de início relutante. Aceita a missão em desagravo aos amigos eliminados em Kansas, tão logo toma conhecimento das salsichas. Acompanham-no os inexperientes Delaney (Ellison), Saughnessy (Platt) e O'Brien (Lennon) — cedidos por Jake — mais o motorista e velho companheiro Shay (Morey).


Nick não perde tempo. Sabe onde pisa e a quem procurar. Diz a que veio ao invadir os aposentos de Weenie e ameaçá-lo. Logo vai à procura de Mary Ann. Encontra-o como anfitrião de almoço festivo servido a amigos, clientes e lideranças locais. O cardápio oferece, além de carne, adolescentes nuas e dopadas exibidas nos currais como objetos de leilão. A cena choca Nick. Mas não há tempo a perder. Curto e grosso, efetua a cobrança e concede prazo mínimo para a quitação. Ao se retirar resgata a garota Poppy (Spacek). Qual o motivo desse gesto? Condoeu-se com a sorte da menina? Deseja-a para o próprio prazer? Ou quis apenas se impor perante Mary Ann? O filme não oferece respostas. Melhor atribuir as causas do ato às ambiguidades do personagem, mais de uma vez explicitadas pela encenação.



Acima e abaixo: Mary Ann (Gene Hackman) provoca o código moral de Nick Devlin (Lee Marvin)

Poppy (Sissy Sapcek)


Os próximos movimentos apresentam uma das melhores sequências de A marca da brutalidade: a sensacional entrada de Nick e companhia no hotel. São cinco homens resolutos que não dão a menor atenção aos olhares de testemunhas incrédulas. Transportam nos braços a catatônica Poppy protegida por uma coberta.


Ela não se assusta ao despertar diante do olhar de Nick. Age como se fatos assim fossem parte de sua rotina. Aparenta ingenuidade. Diz que nunca acordou em lugar tão bonito. Procede de orfanato responsável pelo fornecimento periódico de garotas a Mary Ann. Tem a irmã Violet (Baldwin) em poder de Weenie. No restaurante do hotel os personagens de Marvin e Spacek causam furor. Ambos desconhecem as boas maneiras. Ela usa longo e transparente vestido negro sem nada por baixo. Mas o rosto de poucos amigos do protetor afasta os olhares curiosos. Poppy é o primeiro papel relevante de Sissy Spacek no cinema, então com 22 anos. Embora pareça desajeitada, a futura intérprete da adolescente endiabrada em Carrie, a estranha (Carrie, 1976), de Brian De Palma, movimenta-se com desinibição e desenvoltura.


Sissy Spacek, a intérprete de Poppy
A marca da brutalidade é a primeira grande oportunidade da atriz 


O dia seguinte é tenso. Começa na feira agropecuária de Kansas City. Ritchie exibe tarimba e eficiência ao casar a ansiedade decorrente do embate anunciado entre Nick e Mary Ann com a descontração oriunda da exposição da vida interiorana dos Estados Unidos — um provincianismo situado entre o ridículo, o cafona e o grotesco. Marvin faz rir quando seu personagem se vê na desconfortável situação de provar o leite oferecido por uma fazendeira, que também lhe pede comentários sobre a qualidade do produto. Nas proximidades, Mary Ann assusta crianças, obrigando-as a se desfazer de seus animais premiados por preços irrisórios. Ao localizar a irmã ao lado de Weenie, Poppy apressa o desenrolar dos eventos. A dívida não é resgatada. Perseguidos, Nick e sua protegida buscam refúgio no trigal e são acuados por uma ceifadeira. Dellaney morre na tentativa de ajudá-los. São momentaneamente salvos por Shay, que lança um carro de encontro à máquina.

  
Fecha-se o cerco. Poppy é recapturada; Saughnessy, morto. Nick invade o pardieiro de Weenie. Encontra Violet com o rosto tomado por hematomas. Auxiliado por O'Brien e Shay, ataca a fortaleza de Mary Ann. Ritchie orquestra brilhante sequência de tiroteio num campo de girassóis. O'Brien é ferido. Na estrada, Nick toma um caminhão e obriga o motorista a usá-lo como aríete para arrombar as instalações. A troca de tiros continua nos estábulos. Weenie provoca humor ao morrer, após se lançar furioso e ferido sobre o oponente. Pensava atacá-lo com uma faca. Mas era apenas uma salsicha (!). Baleado, Mary Ann despenca em meio aos porcos. Ensanguentado, atrai os animais que o devoram ainda vivo. Nick não se abala com os gritos de socorro. O epílogo é no orfanato. As internas são libertadas e Poppy usa os punhos contra a tutora.


Nick Devlin (Lee Marvin) 


Há semelhanças entre o personagem de Marvin — atraído por Poppy em A marca da brutalidade —, com o Babe Kossuck que interpretou quando era somente eficaz coadjuvante em Morrendo a cada instante (I died a thousand times, 1956), de Stuart Heisler — refilmagem da obra mestra O último refúgio (High sierra, 1941), de Raoul Walsh. Como o personagem Roy Earl (Humphrey Bogart) nesse filme, Kossuck auxilia uma jovem pobre e cega — Velna (Lori Nelson) — a recuperar a visão.


O melhor momento de A marca da brutalidade é o começo, no frigorífico: correm os créditos de abertura enquanto o cínico e bruto Weenie prepara a transformação em salsicha do terceiro cobrador de Jake. Com distanciamento suficiente a câmera acompanha o processo, desde o "abate" — as nádegas do infeliz são rapidamente visualizadas junto aos bois na fila da morte — ao produto final, com escalas nos depeladores, prensas, esteiras, cortadores, trituradores, moendas, misturadores e embutidores. De relance parece que o espectador vê um pé, já em condições de preparo. A imagem seguinte confirma a visão: um sapato é lançado sobre a esteira.


Entrevistado sobre os personagens violentos, impulsivos e viscerais que sempre interpretou no cinema, Lee Marvin forneceu resposta curta e precisa, capaz de resumir toda a escalada da humanidade rumo à civilização: "A violência está em cada gota de sangue que tenho, porque também descendo dos homens das cavernas. Caso contrário não estaria aqui"[1].


Mary Ann (Gene Hackman) e Nick Devlin (Lee Marvin)


Eddie Eggan, o intérprete de Jack, foi policial em Nova York. Ele e o parceiro Sonny Grosso terminaram afastados da corporação, acusados de desviar heroína apreendida de traficantes franceses cuja atividade investigavam. Parte dessa história foi contada em Operação França (The French connection, 1971), de William Friedkin, no qual Eggan serve de base ao policial Jimmy "Popeye" Doyle, interpretado por Gene Hackman, enquanto Grosso, rebatizado como Buddy Russo, ganhou as feições de Roy Scheider.





Roteiro: Robert Dillon. Direção de fotografia (Panavision, Technicolor): Gene Polito. Primeiro assistente de direção: Michael Daves. Segundo assistente de direção: Ronald R. Grow (não creditado). Desenho de produção: Bill Malley, James Payne. Títulos: Don Record. Figurinos: Patricia Norris. Efeitos especiais: Logan Frazee. Montagem: Carl Pingitore. Assistente de montagem: Herb Steinore. Música: Lalo Schifrin. Guarda-roupa masculino: Ray Summers. Maquiagem: Ken Chase, Emile LaVigne. Penteados: Salley Bailey. Som: John Wilkinson. Mixagem sonora: Barry Thomas. Mixagem da combinação de sons: Joel Moss. Edição de efeitos sonoros: Jack Finlay. Supervisão musical: Ed Forsyth. Eletricista-chefe: Clifford C. Hutchison. Produção de elenco: Hoyt Bowers. Gerente de unidade de produção: David Salven. Gerente de unidade: Les Kimber (não creditado). Supervisão de script: Charlsie Bryant. Assistente de produção: Betty Gumm. Consultor de locações: Les Kimber. Decoração: James Payne. Fotografia fixa: Orlando Suero. Contrarregra: Allan Levine. Assistente de contrarregra: Terry Lewis. Elaboração do poster: Tom Jung (não creditado). Coordenação de construções: Gene Lauritzen (não creditado). Direção de arte: Bill Malley. Produção associada: Mickey Borofsky. Produção executiva: Kenneth L. Evans. Coordenação de dublês: John Hudkins (não creditado). Dublês: Bob Herron, Buddy Van Horn, Ted White. Assistente de câmera: Charles J. Renaud. Operador de câmera: Roger Shearman (não creditado). Capitão de transportes: Roy Hollis (não creditado). Secretária de Michael Ritchie: Dolores Harris (não creditada). Secretária da produção: Vivien Holt (não creditada). Gerente de locações: Dennis Judd (não creditado). Auditor de locações: Elton MacPherson (não creditado). Assistente de produção: Joe Thornton (não creditado). Tempo de exibição: 88 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974; revisto e ampliado em 1988)




[1] ATOR Lee Marvin morre aos 63 anos nos EUA, O. Folha de São Paulo. São Paulo, 31/ago./1987. Ilustrada. p. 28.

domingo, 14 de dezembro de 2014

SEGUNDO ANIVERSÁRIO DO BLOG

John Ford, meu cineasta preferido





Não pensei que chegaria a tanto. Mas eis que o blog Eugenio em Filmes (http://cineugenio.blogspot.com) comemora o segundo aniversário. Já soma 105 filmes comentados, além de algumas matérias especiais do titular e de uns poucos colaboradores.


Pretendo, para o terceiro ano do espaço, preservar o ritmo de publicações que serve de norma desde o primeiro instante: uma apreciação por semana, escolhida aleatoriamente dentre os aproximadamente quatro mil textos que escrevi e continuo a escrever sobre os mais variados filmes que ilustram os diversos momentos de uma vida dedicada à cinefilia, iniciada quando minha mãe resolveu gozar da minha companhia numa ida ao cinema — uma sessão em 1958 de Marcelino Pão e Vinho (Marcelino Pan y Vino, 1955), de Ladislao Vajda. Estava, então, com dois anos de idade.


Graças à contribuição dos pais tenho a conta exata de todos os filmes que vi. São 6405 até o momento. Devo principalmente ao meu pai — especial incentivador de minha paixão pelo cinema — os impulsos para escrever a respeito. Atualmente, sequer sei o que ele pensaria sobre os rumos que a coisa tomou. Lá se vão 56 anos enamorado pelo cinema. Uma relação séria!


O que aguarda o blog em seu terceiro ano? Não faço a menor ideia. Apenas gostaria que os dados lançados aleatoriamente pelas forças da imponderabilidade contribuíssem na eleição de apreciações de títulos de John Ford — meu cineasta preferido — para publicação. Vamos ver!


Alguns cineastas de minha afeição, a partir do alto e da esquerda para a direita: 
Alberto Cavalcanti, Carl Theodor Dreyer, David Lean, Rainer Werner Fassbinder, Frank Borzage, 
Leon Hirszman, F. W. Murnau, Yasujirô Ozu, Pier Paolo Pasolini, René Clair, Raoul Walsh, Fritz Lang, 
Vittorio De Sica e Mario Peixoto. 
Outros nomes são encontrados na matéria APRESENTAÇÃO (http://cineugenio.blogspot.com/2012/12/quem-sou-eu_13.html)


Por fim, comunico aos interessados que Eugenio em Filmes está aberto para colaborações.


Abraços com agradecimentos aos leitores e incentivadores, em especial a Yamê de Oliveira Peixoto e Olímpia Oliveira.



José Eugenio Guimarães

Niterói/RJ, 13 de dezembro de 2014

WILLIAM FRIEDKIN HOMENAGEIA O BURLESCO EM SEU TERCEIRO TRABALHO PARA O CINEMA

Notabilizado por Os rapazes da banda (The boys in the band, 1970, Operação França (The French connection, 1971) e O exorcista (The exorcist, 1973), William Friedkin tem em Quando o strip-tease começou (The night they raided Minsky's, 1968) sua terceira oportunidade na direção cinematográfica. A história — ambientada em Manhattan durante os agitados anos 20 — rende homenagens à era de ouro do teatro burlesco. Teria como elemento condutor a figura mítica e referencial de Bert Lahr, o Leão Medroso de O mágico de Oz (The wizzard of Oz, 1939), de Victor Fleming. Entretanto, a morte do ator durante as filmagens impôs radical alteração à proposta inicial. Houve ainda o afastamento do diretor durante a pós-produção, quando a primeira montagem foi considerada desastrosa. A conclusão dos trabalhos ficou sob responsabilidade exclusiva do editor Ralph Rosenblum. A narrativa trata das investidas do fundamentalismo religioso de diversos matizes contra o universo burlesco representado pela casa de espetáculos National Wintergaten ou Minsky. Como elemento complicador há as intenções da jovem amish Rachel Schpitendavel (Britt Ekland). Fugitiva da comunidade de pertencimento e procurada pelo irascível pai Jacob Schpitendavel (Harry Andrews), ela pretende encenar danças baseadas em motivos bíblicos no palco do profano e visado Minsky.






Quando o strip-tease começou
The night they raided Minsky's

Direção:
William Friedkin
Produção:
Norman Lear
Tandem Productions
EUA — 1968
Elenco:
Jason Robards, Britt Ekland, Norman Wisdom, Forrest Tucker, Harry Andrews, Joseph Wiseman, Denholm Elliott, Elliott Gould, Jack Burns, Bert Lahr, Gloria LeRoy, Eddie Lawrence, Dexter Maitland, Lillian Hayman, Richard Libertini, Judith Lowry, Will B. Able, Mike Elias, Frank Shaw, Chanin Hale, Ernestine Barrett, Kelsey Collins, Marilyn D'Honau, Kathryn Doby, Joanna Rush, Dorothea MacFarland, Billie Mahoney, Carolyn Morris, June Eve Story, Helen Wood, Rudy Vallee e os não creditados Mary Boylan, Henry Calvert, Herbie Faye, Stephen Fitzstephens, Trent Gough, Lester Mack, Joe E. Marks, Remo Pisani, Ellen Stretton, Fat Thomas.



O diretor William Friedkin, apontando, durante as filmagens de Os rapazes da banda (The boys in the band, 1970)


Lower East Side, Manhattan, New York, 1925: fervilham os loucos anos 20, mas não por muito tempo. O “dedo da retidão” — representado por Jacob Schpitendavel (Andrews), Vance Fowler (Elliott) e Louis Minsky (Wiseman) — está prestes a encerrar esse período alegre e permissivo da cultura popular dos Estados Unidos, pelo menos no tocante ao teatro burlesco e particularmente ao National Wintergarten de Billy Minsky (Gould, estreando nas telas). Seu pai, Louis Minsky — judeu ortodoxo, moralista e negociante implacável —, é proprietário do imóvel no qual se instala a casa de espetáculos. Pretende tomá-lo devido aos alugueis em atraso. Vance Fowler — puritano típico, ponta de lança de algo parecido a uma liga da moral e dos bons costumes —, é presença constante na plateia do lugar. Anota e julga tudo o que é apresentado, sempre atento aos vícios e desvios de conduta. Aguarda o menor deslize para solicitar intervenção policial e lacrar o local. Jacob Schpitendavel — fundamentalista da seita Amish — chega a New York procedente de Smoketown, Pensilvânia. Vem em busca da filha recalcitrante, a jovem inocente e angelical Rachel Elizabeth Schpitendavel (Ekland). Ela fugiu dos rigores da comunidade religiosa. Pensa encontrar no National Wintergarten oportunidade à encenação de danças baseadas em passagens bíblicas.



Acima e abaixo: a inocente e puritana Rachel  Elizabeth Schiptendavel (Britt Ekland) chega ao pecaminoso Lower East Side, em Manhattan


As primeiras cenas de Quando o strip-tease começou apresentam Manhattan nos anos 20 — um mix de imagens autênticas e recriadas pela produção. Sob capa de tom francamente nostálgico se alternam o preto-e-branco e cores na exibição das ruas fervilhantes da metrópole, tomadas por feirantes, fluxo intenso de automóveis, multidão apressada e malabaristas. A esse frenesi urbano chega a deslumbrada Rachel. Na comunidade Amish nem luz elétrica conhecia. Certamente, tinha a Bíblia como única leitura permitida.


Raymond Paine (Jason Robards) e a amish fugitiva, Rachel Elizabeth Schiptendavel (Britt Ekland)


A abertura de Quando o strip-tease começou está entre as melhores coisas do filme. É deliciosamente delicada e envolvente, mesmo aos espectadores que pouco sabem de New York e seus significados. Pouco antes, a voz de Rudy Vallee apresentava, em poucas palavras, o básico da trama: o caso de uma garota muito religiosa que, acidentalmente, teria inventado o strip-tease. A intervenção de Vallee — característica do cinema da época — introduz o espectador no tom bem-humorado da história. Ao cinema de hoje, tal comentário soaria totalmente inoportuno, principalmente às plateias facilmente irritáveis com dicas adiantando desdobramentos narrativos e o feito a cargo da personagem de Ekland. Tanto zelo não passa de bobagem, pois em que pese a importância da narrativa, maior valor reside na forma de traduzi-la cinematograficamente. Residem aí as maiores fragilidades do filme. Por outro lado, a comédia de William Friedkin parece se ressentir — vista 44 anos depois de realizada — do mesmo mal que afetou outros exemplares do gênero vindos à luz nos anos 60 da centúria passada, como A corrida do século (The great race, 1964), de Blake Edwards; Um convidado bem trapalhão (The party, 1968), também de Edwards; Deu a louca no mundo (It’s a mad, mad, mad, mad world, 1963), de Stanley Kramer; e Cassino Royale (Cassino Royale, 1967), de Val Guest et al.: o envelhecimento do humor, que soa cansado e pouco espontâneo aos olhos e ouvidos de hoje. Uma pena!


Além de sofrer com os efeitos capitais do tempo, a produção enfrentou outras adversidades, antes e depois da realização. William Friedkin perdeu a mão, a ponto de praticamente se inviabilizar frente ao projeto. Concluiu as filmagens e participou da primeira montagem — considerada desastrosa — de Quando o strip-tease começou. É o terceiro título de sua filmografia, na qual despontam os sucessos de Os rapazes da banda (The boys in the band, 1970) — proibido no Brasil durante a ditadura militar —, Operação França (The French connection, 1971) — premiado com o Oscar de melhor filme — e O exorcista (The exorcist, 1973). Segue a Good times (1967) e Feliz aniversário (The birthday party, 1968).


Com a defecção de Friedkin, o produtor Norman Lear confiou a conclusão dos trabalhos inteiramente ao montador Ralph Rosenblum, que se dedicou à tarefa por mais de um ano. Teve que lidar com a imprevisibilidade da morte, durante as filmagens, de Bert Lahr, o Leão Medroso de O mágico de Oz (The wizzard of Oz, 1939), de Victor Fleming. Além de interpretar o Professor Spats, velho e aposentado ator do burlesco — ao qual apresentaria e introduziria Rachel Schpitendavel —, a presença de Lahr oferecia importantes referências afetivas, históricas e simbólicas ao filme. Lahr atuou no burlesco em seu período áureo. O roteiro de Arnold Schulman, Sidney Michaels e Norman Lear lhe reservou espaço generoso de participação, inclusive a formação de autêntica parceria à moda burlesca, nos momentos finais, com o inglês Norman Wisdom, intérprete de Chick Williams. Wisdom é um dos maiores nomes do burlesco britânico. O duo que formaria com Lahr pretendia clara e bem merecida reverência a um tipo de encenação que marcou toda uma era e foi escola para Charles Chaplin, Harold Lloyd, Buster Keaton, Stan Laurel, Oliver Hardy, Harry Langdon etc. Infelizmente, Lahr ficou reduzido ao mínimo.


O professor Spats (Bert Lahr) seria o elemento condutor da história, mas o ator faleceu durante as filmagens


Rachel e suas danças baseadas em motivos bíblicos parecem ser a última esperança do National Wintergarten ou Minsky. O teatro está prestes a sucumbir frente às pressões do proprietário do imóvel e investidas nada ortodoxas do gângster Trim Houlihan (Tucker). Este, além de credor de Billy, também se locupleta com as atrizes da casa. Mais preocupante, porém, é a cruzada moralista desferida por Fowler. Resolvem desacreditá-lo, a partir de plano do extrovertido Raymond Paine (Robards) — uma das principais estrelas do Minsky e parceiro do tímido e ingênuo Chick Williams. Rachel será anunciada como próxima atração, na pele da fabulosa e ousada Madame Fifi, dançarina que “enlouqueceu Paris”. Mas quando os policiais arregimentados por Fowler fizerem o raid ao teatro, para fechá-lo definitivamente, encontrariam somente a casta e inocente garota em entediante cena bíblica. Pronto! Fowler terminaria desmoralizado e o Minsky seria salvo, provavelmente.


Raymond Payne (Jason Robards) e Chick Williams (Norman Wisdom)


Williams ensina a Rachel a coreografia básica do burlesco. No entanto, apaixona-se por ela. Mas quem leva a melhor é o pouco escrupuloso Paine com suas segundas intenções. Seguem-se as reviravoltas cômicas e o momento em que Rachel é encontrada pelo irascível pai. Paine também fracassa na tentativa de seduzi-la. De equívoco em equívoco a teimosa jovem cai nas garras de Houlihan e não cumpre a promessa feita ao velho Jacob Schpitendavel, de voltar para Smoketown.


Elliott Gould como Billy Minsky


Chega a noite da apresentação de Madame Fifi. Fowler e os policiais estão a postos. A plateia espera, inquieta. Os personagens principais aguardam suas deixas nos bastidores. Contrariada por Minsky, Paine e o pai — que tentam impedi-la de entrar em cena, inclusive contando-lhe a verdade sobre a francesa da dança que “enlouqueceu Paris” —, Rachel comparece diante do público alvoroçado. De início intimidada, mas também incentivada pela multidão, a jovem amish executa os passos básicos do burlesco e agita os quadris. Cada vez mais encorajada e lançando olhares desafiadores aos que a observam da coxia, acentua sua representação bíblica — que não deve estar muito distante da encenação parisiense de uma Madame Fifi supostamente real e de passagens picantes recriadas pela imaginação na leitura de determinados textos de o Livro dos Livros. Rachel tira uma luva! A outra! O lenço! Exibe as pernas sob o vestido longo recortado! O público delira! De repente, para choque dela e de todos, os seios são revelados, acidentalmente. Escândalo! É o momento aguardado por Fowler! A polícia intervém! Tumulto! O filme termina com detenção generalizada. Mas não é o final. Ou é apenas para uma fase do burlesco. As imagens derradeiras exibem pés sobre o tablado. São, supostamente, do Professor Spats. Suas mãos se abaixam. Recolhem um borrifador de água e o depositam no degrau de uma escada portátil. Escada e borrifador! São elementos essenciais do burlesco clássico, abandonados no palco após o tumulto. Parecem simbolizar uma era de inocência que chega ao fim, dando lugar ao novo tempo anunciado pelo ato ousado de Rachel Schpitendavel como Madame Fifi.


A dupla Raymond Paine (Jason Robards) e Chick Williams (Norman Wisdom)

 Rachel Elizabeth Schiptendavel (Britt Ekland) banca Madame Fifi

  
Apesar de homenagear a era de ouro do burlesco nos Estados Unidos, apoiando-se em narrativa também impregnada de burlesco, nem tudo funciona a contento em Quando o strip-tease começou. As coisas parecem fora de lugar. Visivelmente faltaram à produção elementos básicos que confeririam autenticidade e equilíbrio à narrativa. Pode ser, também, que o tom de comédia burlesca já não funcionasse mais com o filme visto tantos anos após a estreia. Ou, então, o andamento de fato se ressentiu com a morte de Bert Lahr e exclusão de sua parceria com Norman Wisdom. A sueca Brit Ekland extravasa simpatia e se mostra à vontade na sua representação de ingênua maliciosa. Algumas cenas e sequências isoladas são muito boas no fornecimento de material cômico: Chick Williams de mangueira em punho, lançando água sobre Raymond Paine, como a lhe apagar o fogo no momento em que fazia a corte a Rachel; a cama de Paine se abaixando automaticamente — parecendo um sinal de Deus para Rachel — e subindo rapidamente no instante em que o pai dela bate à porta; e o diálogo mais que revelador entre os fundamentalistas Schpitendavel e Minsky, quando este diz ao outro: “Apenas um Deus capaz de tolerar a mim poderia tolerar você”.





Roteiro: Arnold Schulman, Sidney Michaels, Norman Lear, baseados no livro When the shooting’s done the cutting begins de Rowland Barber. Produção associada: George Justin. Música: Charles Strouse. Direção de fotografia (cores): Andrew Laszlo. Montagem: Ralph Rosenblum, Pablo Ferro (não creditado). Casting: Marion Dougherty, Bernie Styles (extras). Desenho de produção: Jean Eckart, William Eckart. Direção de arte: John Robert Lloyd. Decoração: John Godfrey. Figurinos: Anna Hill Johnstone. Maquiagem: Irving Buchman. Penteados: Robert Grimaldi. Gerente de produção: Jim Di Gangi. Direção de segunda unidade, títulos de abertura e consultoria de efeitos visuais: Pablo Ferro. Assistente de direção: Burtt Harris. Segundo assistente de direção: J. Alan Hopkins. Camareiro: Richard Adee. Chefe de arte cênica: Edward Garzero. Contrarregra: Donald Holtzman. Construção de sets: Edward Swanson, Walter Way. Edição de som: Jack Fitzstephens. Produção de mixagem de som: Dennis L. Maitland. Regravação de mixagem de som: Richard Vorisek. Assistente de edição de som: Richard P. Cirincione (não creditado). Assistente de câmera: Vincent Gerardo. Operador de câmera: Richard C. Kratina. Ferramenteiro: Michael Mahony. Eletricista: William Meyerhoff. Fotografia de cena: Josh Weiner. Segundo assistente de câmera: Ron Zarilla. Guarda-roupa: George Newman, Florence Transfield. Assistente de montagem: Michael Breddan. Direção musical e orquestração: Philip J. Lang. Coreografia: Danny Daniels, Richard DeBenedictis. Assistentes para o produtor: William Giorgio, Jane Hoyt Thompson (não creditada). Continuidade: Marguerite James Powell. Secretaria de produção: Shirley Marcus. Consultor-técnico: Morton Minsky. Assistente de coreógrafo: Anne Wallace. Companhia de figurinos: Eaves Costume Company. Fornecimento de material para efeitos ópticos: The Optical House N.Y.C. Tempo de exibição: 99 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 2012)