domingo, 16 de dezembro de 2012

O WESTERN INSPIRADO EM DIVERSAS FONTES DA LITERATURA HEROICA

Esqueça o pavoroso título Os brutos também amam, dado pelo distribuidor brasileiro. Mas fique com Shane. É um dos mais belos westerns; um dos mais míticos também. Se você o viu quando era criança, nos anos 50 ou 60, entenderá as razões da atração que o filme de George Stevens exercia sobre a garotada. Nós, meninos de então, éramos fascinados como Joey. E queríamos que nossos pais fossem como Shane. No fim, crescíamos assistindo a partida do mito que embalava nossas ilusões infantis. E aprendíamos a assobiar ouvindo The call of the far-away hills.









Os brutos também amam
Shane

Direção:
George Stevens
Produção:
George Stevens, Ivan Moffat
Paramount
EUA — 1953
Elenco:
Alan Ladd, Jean Arthur, Van Heflin, Brandon De Wilde, Jack Palance, Ben Johnson, Edgar Buchanan, Emile Meyer, Elisha Cook Jr., Douglas Spencer, John Dierkes, Ellen Corby, Paul McVey, John Miller, Edith Evanson, Leonard Strong, Ray Spiker, Janice Carroll, Martin Mason, Nancy Kulp, Helen Brown, Howard J. Negley, Beverly Washburn, Charles Quirk, George J. Lewis, Chester W. Hannan, Bill Cartledge, Steve Raines, Jack Sterling, Henry Wills, Rex Moore, Ewing Brown.



O diretor George Stevens




Pobre Shane (Ladd)! Cavalgou rumo ao norte, fugindo de seu passado e de sua sina! Cavaleiro errante, poderá, quem sabe, encontrar lugar para se enraizar e escapar das trampas que o destino trágico armou à sua revelia. Porém, convenhamos: realizar tal missão seria bem mais fácil que esta, não prevista no roteiro de A. B. Guthrie Jr.: Shane teria que cavalgar muito mais para se livrar da maldição do nefasto título dado pelo distribuidor brasileiro, que o estigmatizou para sempre. É lamentável! Ainda hoje Shane é reconhecido entre nós pelo bestial e piegas Os brutos também amam, quando de bruto nada tem.


Desprestigiado no lançamento, Shane ampliou seu valor com a passagem do tempo. É o mais mítico dos westerns; sublimação de todas as referências e variações do gênero do qual se tornou síntese e quintessência. Foi realizado por um cineasta pouco identificado com a horse opera e os enquadramentos em meio aos grandes espaços. Em algumas das atuais listagens dos melhores westerns, Shane ocupa a primeira posição, apesar de Rastros de ódio (The searchers, 1956), O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valance, 1962), Paixão dos fortes (My darling Clementine, 1946) e do paradigmático No tempo das diligências (Stagecoach, 1939), todos dirigidos por John Ford e, definitivamente, os meus preferidos. Mas o filme de Stevens faz jus ao prestígio granjeado.


Como cavaleiro das canções de gesta em busca do Graal, Shane, em roupas marrons de pele de alce, desce as Grand Tetons, no Wyoming, ao som de The call of the far-away hills — uma das mais inspiradas baladas do western. Chega ao vale onde Joe Starret (Heflin) cultiva um rancho ao lado da esposa Marian (Arthur) e do filho menor Joey (Wilde). O menino — sob cujo olhar Stevens constrói a narrativa e delineia o protagonista — será o primeiro a vê-lo. Solitário, também, testemunhará a partida do herói nos momentos finais.


Joey (Brandon De Wilde)

Shane (Alan Ladd)


Shane é um cavaleiro sem passado. Informações a respeito são omitidas pelo personagem e roteiro. Mas a aproximação furtiva de Joey às suas costas, com o rifle danificado transformado em brinquedo, mostra o quanto é arisco e rápido no saque. Essa informação basta para o espectador concluir sobre a vida pregressa de Shane. Foi, provavelmente, um pistoleiro. Usou as armas para ganhar a vida. Agora, foge do próprio passado, numa jornada por montanhas e planícies, sempre para o norte, buscando onde não o conheçam para repousar em paz.


Taciturno, ascético e solitário, Shane é também justo, corajoso e leal. O rosto pouco expressivo de Ladd contribui para transformar essa mistura de Orlando e Lancelot, moldada pelas mais diversas fontes da literatura heroica, no mais enigmático dos cowboys. Seu senso de justiça é imediatamente posto à prova. Ryker (Meyer)  todo poderoso barão de gado local, acompanhado de seus homens  pressiona Starret a se desfazer de suas terras. A presença de Shane o afugenta. Agradecido, o rancheiro lhe oferece pouso e trabalho. O cowboy aceita. Nômade, tentará se estabelecer. Trocará a roupa caqui de aventureiro errante pelos trajes azuis característicos do agricultor. É também a oportunidade de não mais empunhar armas. Shane vê na oferta de Starret a oportunidade de recomeçar a vida. Mas as circunstâncias o obrigarão a ser, mais uma vez, o personagem que preferia esquecer.



Joe Starret (Van Heflin)


Starret é uma liderança informal dos rancheiros do vale. Tenta convencê-los a unir forças contra as pretensões monopolistas de Ryker. Este quer a propriedade de todas as terras para transformá-las em pastagens. Mas frente a homens poderosamente armados, dispostos a matar, os agricultores nada podem. A sobrevivência da comunidade ou a semente da civilização é posta na dependência das armas de Shane. O cavaleiro andante dos montes e planícies será obrigado a dar vazão à sua sina, mesmo sabendo que tal opção custará o sacrifício da vida estável que, mesmo brevemente, almejara construir. Um ás do gatilho não tem sossego e paradeiro. Há algo de trágico nas escolhas oferecidas ao personagem.


Marian (Jean Arthur) e Shane (Alan Ladd): "Todos estaríamos em melhor condição se não houvesse arma alguma neste vale, inclusive a sua"

  
A comunidade ordeira e pacífica que o protagonista ajudará a consolidar não tem lugar para homens como ele. Mesmo que não queira, Shane é símbolo do poder individual arbitrário e armado  apesar de seu alto senso de justiça. Essa contradição contribui para a percepção de outras tantas, que apoiam a estrutura narrativa do filme. 


O individualismo antissocial de Ryker se contrapõe ao desejo de estabilidade, comunidade, terra e família de Starret e dos rancheiros. Mas o fim das pretensões monopolizadoras e violentas do barão do gado decretará também, simbólica e concretamente, o desaparecimento do próprio Shane e de seus significados. É o que se depreende deste curto diálogo: "O seu tempo está chegando ao fim", diz a Ryker o personagem representado por Alan Ladd. O outro retruca: "E o seu tempo pistoleiro?" Consciente do lugar que lhe reserva a chegada da civilização ao vale, com seus aparatos firmados na objetividade e impessoalidade da lei e do direito, Shane encerra a conversa com: "A diferença, Ryker, é que eu sei disso".


Outras oposições fazem a separação estrita entre "Bem" e "Mal", "Força" e "Fragilidade", "Pradaria" e "Civilização". Mas nenhuma é tão forte como a que opõe o "Dentro" e o "Fora". É nessa dicotomia que Shane se reconhece sem lugar. Apesar de estar "dentro", morando com os Starret e unido aos rancheiros em sua luta, sabe que esse não é o seu mundo. Sente-se deslocado nesse meio. Toma partido ao lado da comunidade, mas não se identifica com ela. Na festa, na casa de um dos rancheiros, enquanto todos estão juntos, ele está apartado. No fundo está "fora", apesar da ambiguidade da situação.



Shane (Alan Ladd) deslocado em meio à comunidade de rancheiros


Marian é a única a compreender a condição de Shane. Entre ambos logo se estabelece uma relação surda, abafada, de paixão impossível de ser correspondida. Apenas a troca de olhares revela a cumplicidade testemunhada por Joey. De certa maneira, por motivos diferentes, todos entre os Starret são atraídos por Shane. Mais um motivo para partir, pois ele não poderá satisfazer a todos os seus desejos.



Shane (Alan Ladd) e Marian (Jean Arthur)


Marian sabe: o cavaleiro que idolatra com o filho partirá um dia. Por isso, prepara-o para a eventualidade. Pede ao garoto para não ficar muito amigo de Shane. Assim, não sofrerá tanto com o desenlace. Ela própria adianta essa possibilidade ao cowboy: "Todos estaríamos em melhor condição se não houvesse arma alguma nesse vale, inclusive a sua". Após enfrentar e vencer  como a imagem do "Bem"  a ameaça de Wilson (Palance)  o pistoleiro de negro e sorriso cínico, personificação do "Mal" que veio de fora , Shane, ferido, se lembrará das palavras de Marian. Ao se despedir de Joey, faz do garoto o emissário de um recado: "Diga a sua mãe que não há mais armas no vale".


O "Mal" personificado: Wilson (Jack Palance)


Testemunhando a partida de Shane, Joey chama de volta o ídolo de sua infância — e de toda uma geração que cresceu vendo westerns. Inútil! O herói sobe as montanhas e ganha distância.  Joey continua a chamá-lo. Enquanto isso, simbolicamente cresce e experimenta a perda da inocência: "Volte, Shane! Mamãe gosta de você!". Finalmente o cavaleiro, representação arquetípica do western e do cowboy, some de vista. Não pertence mais a este mundo. É o fim das ilusões de Joey, dos seus sonhos e desejos de menino. Então parece crescer ao substituir o chamado por uma despedida curta e simples, condizente com o tom lacônico dos westerns: "Adeus, Shane!".



Joey (De Wilde) testemunha a partida de Shane (Ladd) rumo às colinas distantes: "Volte, Shane! Mamãe gosta de você!"


Shane é o primeiro filme colorido de George Stevens. Se demorou a cair no gosto da crítica foi, por outro lado, o western de melhor bilheteria dos anos 50. Seus 120 minutos são de ação viva  não propriamente violenta, mas desprovida de tempos mortos. Sua estrutura é enfeixada por clima solene e atmosfera arrebatadora. Para tanto contribuem decisivamente a complexidade dos personagens e a densidade, tanto dramática quanto temática, de uma narrativa carregada de sofisticação.


As filmagens se valeram das paisagens naturais do Wyoming. O troar do disparo que mata Stonewall (Cook Jr.) é a ampliação do eco de um tiro de canhão gravado no fundo do Grand Canyon. Stevens preferiu filmar o embate final dentro do armazém pela falta de experiência com a ação nos grandes espaços.


Todos os valores considerados fundamentais estão presentes em Shane: responsabilidade, honra, orgulho, amizade, dignidade e amor em todas as suas variações.



Joey (Brandon De Wilde) e a arma quebrada improvisada como brinquedo





Roteiro: A. B. Guthrie Jr., com base no romance de Jack Schaefer. Diálogos adicionais: Jack Sher. Direção de fotografia (Technicolor): Loyal Griggs, premiado com o Oscar. Consultor de Technicolor: Richard Mueller. Fotografia de segunda unidade: Irmin Roberts. Efeitos especiais fotográficos: Gordon Jennings. Fotografia de fundo projetado: Farciot Edouart. Consultor técnico: Joe De Young. Maquiagam: Wally Westmore. Assistente de direção: John Cooman. Assistente de produção: Howie Horwitz. Som: Harry Lingren, Gene Garvin. Música: Victor Young (canção tema: The call of the far-away hills). Diretor associado: Fred Guiol. Produtor associado: Ivan Moffat. Desenho de produção: Hal Pereira, Walter Tyler. Decoração: Emile Kuri. Costumes: Edith Head. Montagem: William Hornbeck, Tom McAddo. Tempo de exibição: 118 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1974)





         


29 comentários:

  1. Maria Elisa Bartholo16 de dezembro de 2012 16:18

    Assisti ao filme Os brutos também amam há muito tempo e, com a sua resenha, pretendo ver novamente. Sempre tive implicância com o título em português. Parabéns pelo blog! Vou ficar aguardando novas resenhas, mesmo que sejam dos nossos "velhos tempos". Naquela época, o cinema era um "alimento" para nossas almas famintas em tempos escuros.

    ResponderExcluir
  2. Olá, Elisa!

    Obrigado pela participação.

    Pode estar certa de que publicarei alguns comentários dos filmes que víamos naqueles "velhos tempos". Tenho bastante coisa, inclusive textos escritos na atualidade. O meu velho problema é vencer as barreiras do meu senso crítico.

    Sempre gostei muito de "Shane". Além da sua qualidade cinematográfica, fascina-me a forma como se comunica com o tempo da minha infância e de toda uma geração que cresceu prestigiando filmes de cowboy. Éramos todos garotos como o Joey.

    Além do mais, não podemos esquecer que o western cinematográfico - compreendendo aí os exemplares mais simples e os mais complexos - fornece alguns dos melhores argumentos para compreender o que são EUA.

    ResponderExcluir
  3. Fatima Chieppe Parizzi18 de dezembro de 2012 17:03

    Acho que vou adorar receber as suas dicas e rever grandes clássicos, já que os seus comentários nos conduzem ao cinema. Saudades do Cine Clube!!!

    ResponderExcluir
  4. Oi, Fátima!

    Que bom o seu aparecimento!

    Você deve guardar na lembrança: uma das vezes em que vi "Shane" foi na casa que você dividiu com Denise e Ângela, aquela que ficava nos "fundos", nas imediações da praça que abrigava a velha rodoviária de Viçosa, aquele
    "monumento a la mierda", como dizia Iracema. Aliás, nessa ocasião assistimos juntos ao filme. Lembro da Denise ironizando o perfil pouco heróico do Alan Ladd. Eu, intilmente, tentava explicar. Nossa! como faz tempo. Acho que isso foi em 1980, por aí.

    Lamento mais uma vez o meu não comparecimento à nossa festa de 30 anos. Não deu, mesmo.

    Beijos. Abraços para o Paulo e herdeiros.

    ResponderExcluir
  5. Excelente resenha ! O filme é muito bom!. Um outro filme excelente (um dos melhores para mim), que você poderia fazer uma resenha, "Três homens em conflito" ou melhor o título em inglês: "The good, the Bad and the Ugly". Parabéns pelo blog.

    ResponderExcluir
  6. Olá, Carlos Vitor!

    Obrigado pela visita e pelo comentário.

    Salvo engano, tenho a resenha de "Três homens em conflito" nos meus guardados. Vou resgatá-la. Se resistir ao meu olhar crítico, publicarei. Ou, então, procurarei rever o filme, para os devidos ajustes e atualizações. Faz muito tempo que o vi pela última vez. Na época, ainda tinha cabelos.

    Abraços.

    ResponderExcluir
  7. Até que enfim uma resenha que difere de tantas encontradas na internet. Trata-se de uma análise completa e totalmente linear. E, ainda, trás para a mesa de discussões a questão das “terríveis” traduções para o português, dos títulos de filmes estrangeiros. Que se manifeste aquele que nunca tenha assistido a um filme e, ao término, não tenha tido a estranha sensação de que o conteúdo não correspondia ao título.
    Eugenio, grande estréia tanto pelo filme escolhido quanto pelo texto apresentado. Para os cinéfilos, trata-se de um verdadeiro presente.

    Marilene Guimarães

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Marilene!

      Até que enfim apareceu! Nossa! Como demorou! Também, só agora ouviu os meus conselhos! Risos!!!!

      Obrigado pelo comentário elogioso. Quanto à "linearidade", bom... Essa pode ser uma característica DESTA resenha. Outras poderão seguir percurso mais sinuoso. Mas espero que todas fiquem claras para os leitores. Fico na esperança de que todas sejam, como você disse, um "verdadeiro presente".

      Abraços.

      Excluir
  8. Eugênio
    Assisti a este filme, obviamente que não atentei para estes detalhes observados por você, inclusive a incoerência do título em português, aliás vários filmes de westerns eu os assisti dando ênfase a ação e agora diante de sua resenha vejo quantas nuances eu perdi com meu foco limitado.
    Parabéns pela iniciativa de socializar este seu vasto conhecimento sobre cinema. Reduza a intensidade de seu sendo crítico, pois tenho certeza que tudo que escreveu ao longo do tempo será muito importante para todos nós, é evidente que há de se considerar, como em toda literatura, a época e o contexto em que as resenhas foram elaboradas.

    ResponderExcluir
  9. Olá, Francisco!

    Obrigado pelo comentário.

    Ainda estou meio assustado com esse negócio. Sabe como é, sempre fui meio refratário a essas coisas inauguradas pela disseminação do computador pessoal e da comunicação virtual. Sempre sou o último a aderir às novidades, geralmente quando já ficaram velhas.

    Faço parte de uma geração que cresceu vendo westerns, em profusão. Aprecio demais o gênero. Os grandes westerns, principalmente os dirigidos por mestres como John Ford, Howard Hawks, Anthony Mann e outros, sempre abriram possibilidades a um discurso crítico sobre os Estados Unidos e seus rumos como nação. De fato, não dá para vê-los unicamente como filmes de ação.

    Na próxima semana verei a possibilidade de compartilhar comentário mais recente, algo escrito este ano, por exemplo.

    Quanto ao meu senso crítico... É forte. Não é sempre que tenho coragem de publicar o que escrevo. Talvez, quem sabe, este blog me ofereça a possibilidade de maior maleabilidade. Vamos ver.

    Abraços.

    ResponderExcluir
  10. Caro Eugênio.
    Adoro western e tinha até me esquecido deste.
    Vou revê-lo.
    Grande resenha.
    Aliás, grandes resenhas.
    Preciso rever vários e conhecer alguns.

    Abraço forte,
    Renatinho.
    (ufeviano)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Renatinho...

      Ora, não sabia de sua adoração por westerns! Passamos uns bons cinco anos "sofrendo" juntos em Viçosa... Jamais soube disso. Bom... Antes tarde do que nunca. Eu continuo fã ardoroso de westerns. Vamos trocar algumas 'figurinhas', então.

      Obrigado pela apreciação dos comentários.

      Abraços

      Excluir
  11. Um clássico de George Stevens que queria, de qualquer maneira, contratar o mitológico Montgomery Clift para viver Shane. O problema é que Clift já estava mergulhado nas filmagens de dois clássicos: A Tortura do Silêncio e A Um Passo da Eternidade. Stevens acabou contratando Alan Ladd que deu conta do recado. Os outros atores que Stevens sonhava para completar o elenco principal eram, William Holden para viver Starret - que pediu uma fortuna e foi prontamente recusado - e Katharine Hepburn para encarnar Marian. A atriz Jean Arthur acabou ficando com o papel. Uma curiosidade sobre Jean Arthur é que ela já havia abandonado o cinema antes de ser convidada. Dona de uma enorme fortuna e já cansada da vida de atriz, Arthur, já aposentada, recusou o papel. George Stevens não se conformou com o não da amiga e interveio nas negociações ligando pessoalmente para atriz; só assim conseguiu convencer a velha amiga a viver Marian. Depois das filmagens, Jean Arthur cumpriu o que prometera e aposentou-se de vêz. "Shane" é um clássico absoluto e inesquecível. Parabéns a você Eugenio pela ótima resenha.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Telmo Vilela Jr.;

      Demorei além do esperado para responder ao seu comentário. Desculpe-me. Agradeço muitíssimo pelas informações. Desconhecia as preferências iniciais de Stevens por Montgomery Clift e William Holden. Hoje, pelo tanto que andou a carruagem, nem consigo imaginar o que seria "Shane" interpretado por esses atores. Também não sabia que Jean Arthur teve que ser convencida pelo diretor a aceitar o papel de Marian, diante de seu abandono das telas. Depois de "Shane", ela marcaria presença na TV, em alguns episódios de "Gunsmoke", de 1965, e no seu (dela) "The Jean Arthur Show" levado ao ar em 1966. Obrigado pela apreciação do comentário. "Shane" é um filme de revisão obrigatória, sempre, nem que seja somente uma vez ao ano.

      Abraços.

      Excluir
  12. O ESTRANHO QUE VEIO DE LONGE
    “Um homem é o que é, Joey
    Não pode quebrar o molde.
    Tentei e não deu certo para mim.
    (Shane)
    Pauline Kael, em seu livro “1.001 Noites no Cinema”, fez uma observação sobre “Os Brutos Também Amam” tão sensível e comovente como a cena do filme: “O grito final de Brandon de Wilde, ‘Shane!’, foi ouvido durante anos em qualquer parte onde houvesse garotos brincando.” Quem não foi, em sua rua, o mocinho, o bandido, ou até mesmo, a garota do saloon? Aqueles que viveram a infância vendo antigos cowboys, certamente, gritaram para um amigo qualquer: “Shane, volte!”. É com lágrimas nos olhos que escrevo este artigo. Talvez seja um dos poucos neste livro em que exponho meus sentimentos na primeira pessoa, a fim de que todos saibam de meu amor e de meu sofrimento por Shane.
    Descobri a magia do filme num de meus aniversários, em 08 de março de 1975, assistindo sua exibição no Cine Alvorada. Coincidentemente, nesse mesmo dia, morria o diretor George Stevens. De alguma forma, eu e “Shane” ficamos ligados até hoje. “Os Brutos Também Amam” deixou marcas em muita gente. Clint Eastwood, eterno apaixonado e defensor dos westerns, rodou um remake chamado “O Cavaleiro Solitário”; e, na ficção caótica “Crepúsculo de Aço”, Patrick Swayze foi um Shane no universo de Mad Max. A rede ABC de tevê produziu um seriado homônimo, com 17 episódios, em 1966, com David Carradine no papel principal. O jornalista Paulo Perdigão escreveu o ensaio “O Western Clássico: Gênese e Estrutura de Shane”. Os críticos franceses colocaram o filme entre os dez melhores de todos os tempos; mas, para mim, “Shane” será sempre um bom motivo para chorar.
    Continua...

    ResponderExcluir
  13. Segunda parte de O HOMEM QUE VEIO DE LONGE, postado inicialmente em 14 de agosto de 2013.

    "No entanto, quem é Shane, afinal? Ou quem foi? De onde veio? O que simboliza? Que mágico poder domina este personagem estranho e resoluto? Ele pode ser a encarnação de Sir Galahad, com seu traje de cavaleiro errante. Nobre, fidalgo e carismático, carrega em si uma força sobrenatural. É um estranho de passado sombrio. Um lacônico cowboy condenado à solidão. Um homem vivendo numa perpétua viagem entre as trevas e a luz. Vindo de uma terra desconhecida e partindo para algum lugar distante, ele sempre vai para o norte, sempre em frente, sem olhar para trás, fugindo de sua própria sina. Só as estradas e as montanhas distantes são testemunhas de seu destino. Shane é, antes de tudo, um dos símbolos absolutos do isolamento humano."
    Não por acaso, o papel de Shane foi entregue a um ator de filmes de aventura, o sereno Alan Ladd. Bonito e atlético, Ladd tinha, também, uma alma torturada. Era um dos anjos atormentados de Hollywood. Com um belo timbre de voz1 e uma ferocidade sutil, “Shane” é um de seus trabalhos mais delicados. Ele parece um fantasma no filme. Sua graça é quase letal. Acho que o sentimento de paternidade e a descoberta do amor deram-lhe forças poderosas. Alan Ladd tinha a pureza dos cavaleiros da Idade Média e o brilho dos galãs de cinema.
    “Os Brutos Também Amam” foi o único western dirigido por George Stevens. É um faroeste de teor psicológico sobre a criação de um mito. Desde o início, “Shane” premeditava ser um clássico elaborado em forma de tragédia moderna. O teórico francês André Bazin escreveu que “o filme de Stevens nasceu do encontro do cinema com a mitologia”. Transformada em fábula americana, a história saiu de um livro homônimo de Jack Schaefer, onde ele escreveu: “... Shane era um homem que viera ao nosso vale saído do coração do Oeste...”. Eis a necessidade da figura do herói numa sociedade órfã de valores nobres. De sofisticada estética e clima solene, no âmago do roteiro de “Shane”, reina a organização da sociedade feudal, a lenda do Velho Oeste, o amor, o respeito, a desgraça, o fim da infância e a extinção de todas as ilusões."

    Continua...

    ResponderExcluir
  14. Terceira parte de O HOMEM QUE VEIO DE LONGE, postado inicialmente em 14 de agosto de 2013.

    "“O Chamado das Colinas Distantes”2 é o nome da canção de abertura. A música sopra como o vento nas pradarias, repetindo, três vezes, uma mesma frase. Uma lendária fotografia épica abre-se com um esplendoroso colorido. Um cavaleiro elegante aproxima-se do vale do Wyoming. Acolhido por uma família de pioneiros, decide ajudá-la a enfrentar a cobiça e a violência de um criador de gado, que quer apoderar-se das terras a fim de transformá-las em pastagens. Para lutar contra ele, os bandidos contratam Jack Wilson, um homem de coração negro, “o anjo da morte”, “o príncipe das trevas” (Jack Palance, de luvas pretas e riso sarcástico). E Shane, queira ou não, é um pistoleiro, mas reluta contra seu destino e debate-se entre a honra e o dever. Ele descobre a paternidade com Joey (com quem o público se identifica) e o amor, através de Marian, a esposa do homem que o abriga. Mas Shane tem respeito demais por Starrett para roubar-lhe a mulher, e prefere permanecer calado em sua angústia. Por fim, duela com Wilson e, simplesmente, vai-se embora, como todas as coisas boas que desaparecem com o tempo.
    Entre Shane e Marian se estabelece o que o escritor Peter Stanbrook chamou de “a mais pura relação que o cinema já mostrou”. As tensões emocionais entre Alan Ladd e Jean Arthur são, realmente, muito emocionantes. Há uma cena em que ele está lá, na chuva, olhando para ela, desejando simplesmente abraçá-la. Mas o amor entre os dois é tão impossível quanto o de Tristão e Isolda. Um dia, durante uma festa, Shane se entristece ao ver Marian em seu vestido de noiva. Ele não tem esposa, nem filhos, nem um lar. Não tem lugar neste mundo. E ela, atraída por seu mistério e sua masculinidade, fica em pânico ao descobrir que o ama. O filho Joey é a única extensão do amor por Shane. O garoto, como todos o meninos, sonha com um herói a cavalo para salvar-lhe dos pesadelos. O pai é frágil demais para tal papel; e é Shane quem exerce sobre ele a fantasia das histórias infantis.
    O diálogo final, logo que Shane deixa o saloon, é duplamente doloroso. Quem fica para trás é uma criança desesperada com a descoberta da perda; e quem parte é um homem ferido e sozinho. Aqui, a reprodução, na íntegra, das falas finais:
    (Shane distancia-se, mas Joey continua falando, e, agora, seus gritos ecoam no vale)
    Joey: “Shane, volte! Papai tem coisas para você fazer E mamãe quer você. Eu sei que ela quer! Shane!”
    (O menino aparece em close)
    Joey: “Shane, volte!”
    (Outro close do menino, agora chorando. Shane é visto subindo a montanha e se ouve o último grito de Joey, em off)
    “Adeus, Shane!”
    E, ao longe, avistamos Shane em seu cavalo à procura da noite escura. As grandes montanhas solitárias o receberão de braços abertos. Apesar dos apelos de Joey, ele deixa o vale tão misteriosamente como chegou. Ele precisava seguir seu caminho. Um homem é o que é. Não pode mudar. Ele tentou, mas não conseguiu."

    "O homem que veio de longe" é de autoria de Socorro Araújo e foi dedicado ao seu primo José Jackson de Araújo (Dako). Está incluído em seu livro "Tão longe de Rosenheim".

    ResponderExcluir
  15. Caro Eugenio,

    O senso critico é o ponto de origem e marco presente em todos que escreve. Ainda mais quem escreve e submete sua leitura a terceiros.

    Olha, amigo: sem senso critico, que tem e deve ser vencido, não haveria nunca nada de bom posto no papel. Todos somos criticos de nós mesmos. Isso é praxe, é natural e compreensivo.

    Agora; tenho de dizer também uma coisa ao amigo: também tenho o hábito de escrever. Escrevo historias de faroestes já há mais de quarenta anos.

    Tinha um guarda roupas cheio de contos, de historias que pesavam mais que a própria peça.
    E minha mulher se aporrinhou e jogou tudo no lixo lá por volta do final dos anos oitenta.
    Minha ira foi tamanha que terminei por nada dizer, afim evitar traumas maior.

    Entretanto, com tudo isso quero vos alertar de uma coisa: nunca procure revisar nada do que fez em tempos idos. Já tentei fazer isso com uma historia minha e ela nunca acabava, além de perder o foco da mesma e terminar escrevendo uma outra nova.

    Se tens algo escrito há anos e teme publicar seu conteudo, perca o temor e solte-o para nós. Eu vos garanto que sua matéria está tão perfeita e tão boa como se a mesma fosse escrita hoje.

    Este seu temor é um temor que é sentido por todos que escrevem. Esquece-o e confia nos que dizem dos seus textos; "uma bela resenha, Eugenio". Pode confiar nestes leitores.

    Já ouviste alguma vez Jorge Amado dizer que nunca leu nada do que escreveu? Ele dizia que se o fizesse, teria certeza que rasgaria tudo e começaria tudo de novo.
    Agora veja a obra deste homem.
    Então, sem temores, remorsos ou assombrações, solte suas matérias como estão, pois estão ótimas, garanto isso para ti.

    Abraço enorme do amigo da Bahia

    jurandir_lima@bol.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Jurandir, meu caro;

      Agradeço pelas palavras. São de um incentivo e tanto. Só aproveito o começo para lamentar o destino dado à produção que vinha armazenando no guarda roupa. Nunca passei por desgosto parecido. Então, sequer posso dizer que "imagino" o que tenha sentido ao ver tantos e preciosos materiais, arquivados ao longo de anos, sendo descartados. É inimaginável.

      Meu caro, de certa forma venho, neste espaço, liberado ao conhecimento dos interessados os textos de minha lavra, escritos nas mais diversas épocas. Dentro do possível, todos vem à luz preservando a forma original. O que costumo fazer, principalmente com os escritos mais antigos, é revisar o português e melhorar o sentido e encadeamento das frases. Em alguns sou obrigado a mexer em muita coisa, principalmente na produção dos tempos de garoto que costuma estar carregada de adjetivação e aparentam ser tão pouco substantivas. Coisas da idade, quando a gente se inicia na difícil arte de escrever. Digo que comecei a escrever sobre cinema aos 18 anos, em 1974. Isso em se tratando de escrita fluente. Mas minhas primeiras impressões começaram a ser anotadas por volta dos 10 anos, em 1966. Mesmo assim, procuro preservar o espírito original dos textos. No fundo, não tenho receio de liberar coisa alguma que tenha produzido. É um material que faz parte do meu crescimento intelectual e afetivo, que me acompanha desde muito tempo.

      Mais uma vez, muitíssimo obrigado pelo incentivo, meu caro amigo.

      Grande abraço.

      Excluir
  16. Gostaria de falar alguma coisa de Shane. Mas...o que? O que, se tudo acaba de ser dito aqui, quer na postagem, quer nos comentários?

    Só posso acrescentar que Shane por anos foi meu numero um no meu Top Ten. Depois de algumas análises o substitui por Da Terra Nascem os Homens, o grande western de Wyler.

    O segundo e terceiro ?
    Bem...não sei se é o campo próprio para isso. Mas...mas lá vai. Meu segundo é A Arvore dos Enforcados. E Shane pega a terceira posição.

    Apenas fazer uma ressalva e dar meus parabens a Socorro Araújo, pelas 3 partes comentadas nesta postagem, cuja beleza de sua plasticidade me leva a fazer esta observação.
    Linda, muito linda suas tres partes aqui postas.

    jurandir_lima@bol.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caro Jurandir;

      SHANE é para sempre! Um filme que me emociona até hoje, por mais que o tenha visto não sei quantas vezes. Certamente, está no meu TOP TEN dos Westerns. Não tenho coragem de fazer estas listas, ainda que já tenha feito (Hehehe!), pois nos cobram muito em termos de desgaste emocional. Sei somente que dois filmes de John Ford, O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA e RASTROS DE ÓDIO, alternam-se entre os meus preferidos. Para resolver o dilema gosto de dizer que nos dias pares o preferido é um, nos dias ímpares, é o outro.

      Quanto ao texto da Socorro Araújo... É uma das coisas mais lindas que alguém já escreveu sobre um filme. Está publicado num pequeno e precioso livro que ela escreveu, TÃO LONGE DE ROSENHEIM E OUTROS ENSAIOS CINEMATOGRÁFICOS. É uma publicação da Expressão Gráfica e Editora, de Fortaleza. Veio à luz em 2000. Pelo visto, está esgotado. Caso esteja interessado, talvez tenha a sorte de encontrá-lo em algum sebo. Informarei a ela sobre as boas impressões que o texto lhe provocou.

      Abraços de Niterói.

      Excluir
  17. Shane, está entre os "10" melhores Western de todos os tempos. É bom lembrar que o filme inspirou a série "Shane"(66) com David Carradine(Sahe),Jill Ireland(Marian Starett),Tom Tully(Tom Starett) e Christopher Shea(Joey Starett). Infelizmente a série não passou de uma "primavera". Eu tive um amigo,o Gotegipe,no Bairro Santa Efigênia, que adorava lembrar do personagem de Alan Ladd,e recitava alguns diálogos entre Shane e o garoto Joey. Acredito eu que exista em outra dimensão, almas do tipo dele, um cara cheio de luz,e que amava o Cinema como nós. Olá boy?.......

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Marcos!

      Belíssima e oportuna a referência que fez ao seu amigo, o Cotegipe. Você fala do Bairro de Santa Ifigênia... É em Belo Horizonte? Se for, é um lugar que conheço bastante, não tanto quanto Santa Tereza, mas faz parte de minhas áreas de influências na capital mineira.

      Infelizmente, meu caro, desconheço por completo qualquer episódio da série televisiva "Shane". Lembro dela. Parece que era exibida pela Rede Tupi (TV Itacolomi, em Minas). Mas, na época, eu não tinha como assisti-la.

      Você conhece o livro de Paulo Perdigão - um dos nossos melhores críticos de cinema, já falecido, infelizmente - dedicado a "Shane"?

      As gerações mais novas precisam redescobrir o filme de George Stevens e aprender a apreciá-lo como uma dos mais ternos e belos westerns.

      Grande abraços.

      Excluir
  18. Salve Eugenio!

    SHANE esta listado entre meus TOP-TEM no gênero western. Quando falamos desta prestigiosa fita, lembro também de um grande colunista de cinema e TV, que foi o saudoso PAULO PERDIGÃO, que costumava dizer que era o filme da vida dele. Perdigão, que escrevia para o JORNAL O GLOBO, e entre o final da década de 1970 até o início da década de 1990 foi o programador dos filmes da Rede Globo, declarou seu amor ao filme de George Stevens em uma edição do Globo Repórter, chegando mesmo a entrevistar o cineasta em duas ocasiões em sua visita a Los Angeles. Perdigão publicou o livro GENESE E ESTRUTURA DE SHANE, onde contou fatos e curiosidades acerca da produção, num estudo bem acurado sobre a obra estrelada por Alan Ladd.

    OS BRUTOS TAMBÉM AMAM é um título realmente ridículo, muito criticado por aqui por cronistas conceituados, já que o pistoleiro interpretado por Ladd nada tinha de bruto. Era um personagem lacônico, misterioso, que tudo que queria era encontrar a paz, o que acabou não conseguindo. Um cavaleiro do começo ao fim da película, que comprou uma briga que não era dele, para defender a família de um menino que o idolatrava em sua inocência tão pueril.

    Aliás, a inocência do menino, o Pequeno Joe, interpretado por Brandon De Wilde (que em 1972 morreria em trágico acidente de carro) é retratada em todo o momento, e a saga de SHANE é contada pela ótica da criança, símbolo de pureza, que vê no herói um anjo do bem, que esta lá para salvar seus pais da violência promovida no local.

    SHANE reúne elementos da fábula luta do bem contra o mal. Quem não entende de cinema, certamente vai achar piegas, pois ao assistir não vai saber analisar tamanha profundidade, pois a intenção de Stevens não é o de comover, mas de fazer ver aos olhos do público o que se passa na mente de um menino e seus mais variados conceitos sobre o bem e o mal, através de um personagem enigmático que esta em busca de sua redenção. Assim, a meu ver, é SHANE.

    Abração!

    Paulo Telles
    Blog Filmes Antigos Club Artigos
    www.articlesfilmesantigosclub.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Paulo Teles
      Blog Filmes Antigos Club Artigos
      www.articlesfilmesantigosclub.blogspot.com.br,

      Meu caro, SHANE é um filme que me acompanha desde o começo dos tempos, posso dizer. Impossível ficar indiferente à mensagem que transmite. Apesar de George Stevens ser um diretor um tanto quanto estranho ao gênero, conseguiu, acredito, reunir na realização os principais componentes do mito do western e do velho Oeste. E traduziu tudo muito bem pelo olhar de uma criança, uma criança bem situada no tempo e no espaço, não só com respeito à realização. Joey também é uma representação dos meninos como eu, que nasceram nos anos 50 e curtiram o melhor da infância na década seguinte, apaixonados que eram pelos filmes de faroeste e pela figura quintessencial do cowboy, tão bem personificada por Shane/Alan Ladd.

      Tenho o livro do Paulo Perdigão. Fiz questão de comprá-lo, ainda nos anos 80, tão logo foi lançado.

      Uma curiosidade - soube dessa canção pela Socorro Araújo. Você a conhece? É de Roger Waters (https://www.youtube.com/watch?v=90dnbzFGOSM)? Segue a letra:

      "An angel on a Harley
      Pulls across to greet a fellow rolling stone
      Puts his bike up on it's stand
      Leans back and then extends
      A scarred and greasy hand...he said
      He said, how ya doin bro?
      Where ya been?
      Where ya goin'?
      Then he takes your hand
      In some strange Californian handshake
      And breaks the bone
      [Whiny person:] "Have a nice day, hehe"

      A housewife from Encino
      Whose husband's on the golf course
      With his book of rules
      Breaks and makes a 'U' and idles back
      To take a second look at you
      You flex your rod
      Fish takes the hook
      Sweet vodka and tobacco in her breath
      Another number in your little black book

      These are the pros and cons of hitchhiking
      These are the pros and cons of hitchhiking
      Oh babe, I must be dreaming
      I'm standing on the leading edge
      The Eastern seaboard spread before my eyes
      Jump, says Yoko Ono
      I'm too scared and too good looking, I cried
      Go on, she says
      Why don't you give it a try?
      Why prolong the agony all men must die
      Do you remember Dick Tracy?
      Do you remember Shane?
      [Child:] "And mother wants you."
      Could you see him selling tickets
      Where the buzzard circles over
      [Child:] "Shane."
      The body on the plain
      Did you understand the music Yoko
      Or was it all in vain?
      [Child:] "Shane..."
      The bitch said something mystical
      (Herro)
      So I stepped back on the kerb again

      These are the pros and cons of hitchhiking
      These are the pros and cons of hitchhiking
      Oh babe, I must be dreaming again
      These are the pros and cons of hitchhiking
      These are the pros and cons of hitchhiking
      These are the pros and cons of hitchhiking
      These are the pros and cons of hitchhiking"

      Preste atenção ao trecho onde se ouve:

      "Do you remember Dick Tracy?
      Do you remember Shane?
      [Child:] "And mother wants you."
      Could you see him selling tickets
      Where the buzzard circles over
      [Child:] "Shane."
      The body on the plain
      Did you understand the music Yoko
      Or was it all in vain?
      [Child:] "Shane..."
      The bitch said something mystical".

      A canção confirma os nossos piores temores pela versão do compositor: o cavaleiro andante personificado por Shane não sobreviveu. Ele saiu ferido do duelo com Wilson (Jack Palance). E morreu no alto da montanha. Triste imagem. Mas planamente de acordo com os meus temores de permanente espectador dessa maravilhosa película de George Stevens.

      Um abraço.
      José Eugenio Guimarães

      Excluir
  19. Meu primeiro contato com o filme SHANE foi durante a minha infância. Não sei qual dos meus irmãos adquiriu uma revista em preto e branco (o papel parecia de jornal) que trazia o filme no formato em quadrinhos, só que em vez de ser desenhado era todo ilustrado com dezenas (talvez centenas) de fotos de todo o filme. Para compreender a história havia legendas e balões para identificar as falas de cada personagem. O título em português era acho que A COLINA DOS HOMENS PERDIDOS — não tenho certeza porque doei esta revista e toda minha coleção de cinema (acumulados durante uns 36 anos) para um cinéfilo daqui de Piracicaba (SP) no ano de 2011.

    SHANE é um dos filmes que mais vezes revi (umas oito ou dez vezes). A primeira vez deve ter sido no final da década de 1970 ou por volta de 1981. Como já amava o gênero faroeste, foi fácil ficar apaixonado pelo filme.

    Penso que o maior erro foi a escalação de Alan Ladd no papel de Shane. Ator inadequado porque além de canastrão era de baixa estatura. O que ele tinha de positivo era a voz grave e a fisionomia bonita. Embora fosse ótima atriz, Jean Arthur já estava madurona para o papel, tanto que era mais velha que Ladd e Heflin.

    Na época em que comprei o DVD deste filme tive a curiosidade de ver quadro a quadro o tiroteio final. Vendo o filme em velocidade normal sempre achei estranho o tiro disparado por Alan Ladd contra o vilão que está escondido no andar superior do saloon. Então, em quadro a quadro dá para ver que Ladd atira para baixo. Obviamente ele se precipitou e apertou o gatilho mais cedo, talvez por falta de jeito. O diretor Stevens, mesmo sendo perfeccionista, não viu o erro ou preferiu deixar assim mesmo.

    Eis alguns links onde você pode ler outras opiniões sobre este clássico:
    http://westerncinemania.blogspot.com.br/2013/09/shane-os-brutos-tambem-amam-um-faroeste.html
    http://50anosdefilmes.com.br/2009/os-brutos-tambem-amam-shane/
    http://curtindocinema.blogspot.com.br/2011/09/critica-os-brutos-tambem-amam.html
    https://assimerahollywood.wordpress.com/2012/12/17/filmes-shane-os-brutos-tambem-amam/
    http://www.hollywoodiano.com.br/2013/09/shane-nunca-voltou-os-60-anos-de-um-grande-faroeste/
    http://ocinemaantigo.blogspot.com.br/2012/10/os-brutos-tambem-amam-1953.html

    Parabéns pelo blog, José Eugenio, passei o domingo vendo seu conteúdo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Hildebrando!

      Obrigado pela visita e pelas apreciações.

      "Shane" também me foi apresentado durante a infância. Meu pai - meu primeiro e mais importante orientador na cinefilia - me levou para vê-lo durante um relançamento por volta de 1963. Conheço esta coleção que reproduzia obras dos westerns - e de outros filmes - em quadrinhos, com fotos das cenas. No Brasil, foram publicados pele EBAL - Editora Brasil América. Mas a matriz original dessas publicações é francesa, o que explica o título A COLINA DOS HOMENS PERDIDOS. Na verdade, deveria ser O HOMEM DOS VALES PERDIDOS. Na França, o o título de "Shane" é "L'homme des vallées perdues".

      Obrigado pelo elogio ao Blog.

      Abraços.

      Excluir
  20. Esqueci de comentar: neste endereço é possível baixar o livro WESTERN CLÁSSICO Gênese e Estrutura de Shane, escrito por Paulo Perdigão.
    https://app.box.com/s/gzc8ylud6xm5tneek02o690oxy2kc3gz

    Por volta de 1984 desenhei este cartaz do filme usando um outro elenco imaginado por mim: https://sites.google.com/site/galeriadohilde/Home/galeria-4/cartazes-de-filmes/cartazes-viii
    Randolph Scott (Shane), Joel McCrea (Joe), Barbara Stanwyck (Marian), Robert Taylor (Jack Wilson), Anthony Quinn (Chris Calloway), Charles Bickford (Rufe Ryker), Ward Bond (talvez Frank Torrey) e Lee Majors (Joey). Ano de produção: talvez 1948.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Hildebrando.

      Fui ao cartaz que você desenhou. Muito legal. Inclusive a sugestão para o elenco. Tenho o livro escrito pelo Paulo Perdigão. Consegui em BH, quando o autor lá esteve para lança-lo. Meu exemplar é, inclusive, autografado.

      Abraços.

      Excluir