domingo, 10 de dezembro de 2017

DISNEY NA SAVANA AFRICANA DO REI DOS ANIMAIS

A famosa série Maravilhas da natureza (True-life adventures), da Walt Disney Productions, é um conjunto de 17 títulos de metragens diversas que enfocam documentalmente a convencionada vida selvagem ou natureza em estado bruto. De 1948 a 1960 as equipes de filmagens da companhia percorrem savanas da África, o gelado Ártico, planícies e pântanos dos Estados Unidos, selvas do Canadá e da América do Sul. Com muita paciência e dedicação colheram imagens esmeradas, trabalhadas por montagens dinâmicas e ritmadas por espirituosos comentários musicais. Marcaram época títulos como No vale dos castores (Beaver valley, 1950), O alce olímpico (The olimpic elk, 1952), Aves aquáticas (Water birds, 1952), Terra dos ursos (Bear country, 1953), Prowlers of the everglades (1953), O drama do deserto (The living desert, 1953), A planície imensa (The vanishing prairie, 1954), No coração da floresta (Perri, 1957) e, entre outros, o filme da vez neste blog: o premiado O leão africano (The African lion, 1955), dirigido por James Algar — responsável por quase todos os exemplares da série. Apesar de muito incensado, tem andamento dos mais lentos e composição das mais sisudas se comparado às demais realizações das Maravilhas da natureza. Provavelmente pelo fato de que as savanas da África são espaços dos mais dramáticos e violentos para a encenação da luta pela vida. Nisso, algumas imagens impressionam e chocam, principalmente ao captar o desespero das espécies durante o inclemente período das secas, marcado por extensas migrações coletivas. Segue apreciação de 1995. 





O leão africano
The African lion

Direção:
James Algar
Produção:
Walt Disney (não creditado)
Walt Disney Productions
EUA — 1955



O diretor James Algar



De 1948 a 1960 — quando diversificou consideravelmente as atividades — a Walt Disney Productions executou a famosa série True-life adventures — no Brasil, Maravilhas da natureza. É um conjunto de filmes curtos, médios e longos que apreendem diversos aspectos da natureza, em particular da convencionada vida selvagem. Os títulos foram concebidos com esmero fotográfico, montagens dinâmicas, divertidos comentários musicais e até revolucionários movimentos/tomadas de câmera. No Ártico, por planícies, desertos e pântanos dos Estados Unidos, nas florestas canadenses, savana africana e selvas da América do Sul, as equipes de filmagens da Disney colheram material para 17 produções. Todas, pelo visto, ganharam, além das telas dos cinemas, as páginas das histórias em quadrinhos de números publicados pela Editora Abril, ao longo das décadas de 60 e 70, das revistas Tio Patinhas e Almanaque Disney. Nesse formato, infelizmente, perderam-se o rigor do olhar, os efeitos fotográficos, os comentários musicais, as reações dos animais e a própria dinâmica do material cinematográfico.


Prestigiar a exibição dos filmes da True-life adventures nos cinemas sempre foi oportunidade das mais prazerosas, ainda mais quando exemplares curtos completavam o tempo das sessões e, não raro, revelavam-se mais interessantes e inteligentes que os títulos principais estrelados por gente de carne e osso.


O folgado leão: come e dorme

A leoa à espreita dos gnus

A leoa e os filhotes


O leão africano é o décimo filme da True-life adventures. Os demais são: A ilha das focas (Seal island, 1948), No vale dos castores (Beaver valley, 1950), Nature’s half acre (1951), O alce olímpico (The olimpic elk, 1952), Aves aquáticas (Water birds, 1952), Terra dos ursos (Bear country, 1953), Prowlers of the everglades (1953), O drama do deserto (The living desert, 1953), A planície imensa (The vanishing prairie, 1954), Secrets of life (1956), No coração da floresta (Perri, 1957), O Ártico selvagem (White wilderness, 1958), Criaturas estranhas da natureza (Nature’s strangest creatures, 1959), O eterno e misterioso mar (Mysteries of the deep, 1959), O gato da floresta (Jungle cat, 1960) e Islands of the sea (1960). Criaturas estranhas da natureza e O eterno e misterioso mar não trazem referências aos diretores. Paul Kenworthy e Ralph Wright são os responsáveis pela concepção de No coração da floresta. Aves aquáticas é de Ben Sharpsteen. Todos os demais componentes da série têm direção de James Algar. As narrações originais, invariavelmente de Winston Hibler, ganharam, no Brasil, versão em português pela voz de Aloysio de Oliveira.


O leão africano consumiu três anos de tomadas em locações diversas das savanas da África Meridional e Central, dominadas pelo único ponto elevado da região: o Kilimanjaro. Foi premiado com o NBR Award pela estadunidense National Board of Review, que o incluiu entre os dez títulos mais importantes de 1955. Em 1956, no Festival de Berlin, o diretor James Algar recebeu a Grand Silver Plaque e, por Melhor Documentário Longo, o Urso de Prata.


Comparado a outros filmes da True-life adventures — principalmente com Aves aquáticas, A planície Imensa e O drama do deserto, os que mais se fixaram em minha memória —, O leão africano é mais sisudo na apresentação e condução da temática abordada. Carece de humor. Por outro lado, tal característica, provavelmente, não encontraria espaço e tratamento adequados diante da dureza da vida nas savanas, principalmente da constante luta pela sobrevivência que ocupa os animais em tela.


A diligente leoa perscruta o entorno para a caçada


Apesar de o título fazer referência apenas ao leão, outros animais são considerados: zebras, impalas, búfalos, rinocerontes, hipopótamos, gazelas, antílopes, babuínos, elefantes, leopardos, guepardos, gnus, hienas, chacais, crocodilos, girafas, aves diversas, gafanhotos e mais insetos são razoavelmente privilegiados pelas tomadas e narração. Todos integram a corte do leão. Alguns entram na composição alimentar do rei dos animais. Servem de justificativa à nobreza do título e, paradoxalmente, também questionam a realeza leonina. Afinal, passa a vida quase que na mais completa modorra, preferencialmente dormindo. Todo o árduo trabalho da caça corre por conta das fêmeas. Além do fornecimento de alimentação ao bando, vigiam as carcaças contra as expropriações oportunistas de chacais e hienas.



Os elefantes - acima e abaixo - também habitam a savana


A savana também é habitat das girafas (acima) e do leopardo (abaixo)


Algumas imagens impressionam, principalmente as tomadas da grande migração compartilhada por todos os animais da savana durante a estação seca. Nessa ocasião, os gnus — em decorrência do calor e da poeira — são tomados de desorientação e vagam em círculos; gigantescas nuvens de gafanhotos afetam negativamente a percepção dos felinos enquanto fazem a festa de aves famintas. Uma sequência chocante e cruel merece destaque: o rinoceronte mortalmente aprisionado no lago transformado em atoleiro tenta inutilmente se desprender, imagem que enche de pavor o elefante.





Apresentação: Walt Disney. Narrador: Winston Hibler. Roteiro: James Algar, Winston Hibler, Ted Sears, Jack Moffitt. Produção associada: Ben Sharpsteen. Música: Paul J. Smith. Direção de fotografia (Technicolor): Alfred G. Milotte, Elma Milotte. Montagem: Norman R. Palmer. Gerente de produção: Erwin L. Verity. Direção de som: Robert O. Cook. Processos especiais visuais: Ub Iwerks. Efeitos de animação: Joshua Meador, Art Riley. Orquestração: Joseph Dubin. Edição musical: Evelyn Kennedy. Gravação de som: RCA Sound Rocording. Colabororação à produção: Departamento de Parques da Tanzania; Reserva Sluhluwe-Umfolozi; Reservas naturais do Quênia; Parque Nacional Kruger, África do Sul; Parque Nacional do Quênia; Parque Nacional Rainha Elizabeth, Uganda; Parque Nacional Seregente, Tanganika; Autoridade em Vida Selvagem, Uganda. Tempo de exibição: 75 minutos.


(José Eugenio Guimarães, 1995)